Murilo Guimarães
Murilo GuimarãesFoto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

 

Feriado prolongado é um tentador convite para mudança de ares e “dolce far niente”, como gostam os italianos. Que nas palavras de Ascenso Ferreira se traduz como “pernas pro ar que ninguém é de ferro”. Na páscoa, Fazenda Nova, Gravatá e redondezas são destinos muito procurados. E vinho casa bem com festividades e clima frio. Será essa então a única razão para o momentâneo forte apelo comercial de consumo desta bebida?

Vamos para a história, amigos. Páscoa origina-se do hebraico Pessach (passagem), festa judaica com mais de 3.000 anos que comemora o êxodo dos escravos hebreus do Egito, guiados por Moisés. E a bebida fazia parte desta comemoração, que lá dura oito dias. Desde que Jesus, festejando a páscoa e antes de sua morte, ofereceu o “sangue de seu corpo” - representado pelo vinho - a páscoa cristã incorporou esta prática salutar.

E a harmonização enogastronômica com a culinária típica da época? Peixe pede vinho branco sim. Ou espumante. Vinho tinto jovem (sem amadurecer em madeira) é uma opção para peixes com sabor forte. Como o bacalhau, prato típico da 6ª.-feira de páscoa, que deve ser acompanhado por um tinto suave. Com o perdão dos amigos portugueses, defensores do vinho tinto verde (região do Minho) que, embora jovem, tem taninos e adstringência muito fortes, suplantando o sabor do bacalhau. Pecado. E logo na sexta santa!

Nos outros dias tome vinho tinto maduro ao comer carneiro, prato ainda mais típico da páscoa, desde os idos do profeta Moisés. Mas esse é assunto para Maria Lectícia.

Quanto ao chocolate, com seu gosto forte e adocicado, só se harmoniza bem com alguns vinhos fortificados. Existem vários exemplos deste tipo de vinho. O Porto, o Xerez (Sherry) e o Banyuls são alguns. Basicamente a técnica consiste em interromper a fermentação do mosto das uvas por volta da metade do processo - assim se mantém mais açúcar, que não foi fermentado - e na adição de um álcool, geralmente o vínico.

Daí o nome fortificado. Esta técnica foi desenvolvida no séc. XVIII para aprimorar e preservar o sabor do vinho português que era exportado para a Inglaterra. Além de acompanhar bem o chocolate, é excelente para ser bebido com outros doces. E como aperitivo, ô! Deve ser bebido gelado, leitor. Tim, tim. Brinde à vida!

* Murilo Guimarães é médico e enólogo. Escreve quinzenalmente neste espaço.

 

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