Material histórico foi base para as criações
Material histórico foi base para as criaçõesFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

Se você já morou fora do Recife por um longo período e depois voltou, possivelmente percebeu grandes mudanças na cidade. Outras características, porém, permanecem as mesmas há dois séculos, como os problemas de saneamento e lixo! Nos tempos da ocupação holandesa por aqui, coube a pintores como Frans Post, Debret e Albert Eckout o registro iconográfico, através da pintura, da capital pernambucana, já com suas pontes, um importante porto marítimo, e sem esquecer seus habitantes, que, na época, usufruíam da liberdade de culto. Tanto é que o físico e astrônomo judeu Galileu Galilei pensou em vir para cá. Com o passar dos anos e o advento da tecnologia, a fotografia cuidou de memorizar a urbanização para o conhecimento das futuras gerações.

O designer Terciano Torres, no entanto, ainda prefere recorrer ao desenho, feito com bico de pena, bem detalhista para, a partir de suas próprias observações, criar uma série de mapas lúdicos, em preto e branco e com detalhes coloridos para conferir uma ergonomia visual. Esses mais de 60 painéis ou macrogravuras, feitos há 12 anos, revelam o "Recife Através dos Tempos", exposição que inaugura nesta terça-feira (21), às 19h, para convidados, o calendário 2017 da Caixa Cultural do Recife, e traz uma maneira visual, fácil e divertida de aprender a nossa história, não tão divertida assim. Pelo contrário, bastante sangrenta, pois marcada pela subjugação dos povos africanos e extermínio dos povos indígenas.

"Meu trabalho tem uma linha muito documental", define Terciano, que já se utilizou desse mesmo suporte artístico visual para desenrolar o carretel histórico de outras capitais brasileiras. "Conheço 90% das capitais brasileiras, como nasceram, se formaram e o futuro delas. Toda cidade é mutante", conclui.

Prova disso é o Marco Zero, foco da observação de Terciano, e diante do qual se encontra o local da mostra. "Esse prédio é um trabalho de ex-escravos com arquitetura europeia. A água lambia isso aqui, que era um pedacinho de areia. Com o tempo, foi sendo aterrado. Logo ali, na Rua do Bom Jesus, ficava a porta de entrada da cidade. Sim, naquele tempo, todas as cidades eram encasteladas. "O portal foi demolido para dar lugar à Torre de Malakoff", lamenta Terciano. Onde hoje vemos grandes navios atracados paravam hidroaviões e embarcações a vapor, uma modernidade dos anos 1849. "Aqui era o aeroporto da época", compara.

Para criar os desenhos, Terciano fez uma longa pesquisa em mapas, fotos antigas e vídeos. Não foi difícil. Ao menos, memória iconográfica o Recife tem. "Há 50 anos não era comum ver pessoas acima do peso nas ruas. Os habitantes eram mais esbeltos. Agora é algo comum por consequência do sedentarismo, do tipo de alimentação. Os índios, primeiros habitantes locais, viviam 120 anos! Quando o homem branco chega, ficamos à mercê da pilhagem", ressalta o artista.

Teoricamente, uma cidade deveria ser feita para as pessoas. Ainda que, na prática, isso não aconteça, o exercício da observação não deveria ser feito apenas por artistas como Terciano. "O mundo hoje é veloz e as pessoas apenas olham, mas não veem", critica. Observando a história pelo retrovisor, de trás para frente, o designer ilustra fatos com liberdade poética, sem se esquecer dos elementos humanos, nem das tecnologias que ficaram no passado. "É importante mostrar aos mais jovens como era o ônibus elétrico; o táxi dos anos 70. Existem crianças que não sabem o que é uma feira, ou mesmo uma fruta", lamenta.

E jamais conhecerão originalmente, como foram concebidos, o Marco Zero, e as avenidas Guararapes e Dantas Barreto, que são, para Terciano, os três locais que mais sofreram intervenção no Recife. Para abrir a Dantas Barreto, a Igreja dos Martírios foi destombada e demolida. "Prédios públicos também sofreram reformas desastrosas e reconhecidas, posteriormente, até pelos arquitetos que as fizeram e que me confidenciaram o arrependimento", revela. Mudar uma cidade é alterar a história para sempre.

Material histórico foi base para as criações
Material histórico foi base para as criaçõesFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
Para suas criações, o artista plástico Terciano Torres pesquisou mapas, fotos e vídeos
Para suas criações, o artista plástico Terciano Torres pesquisou mapas, fotos e vídeosFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
Exposição "Recife Através dos Tempos", na Caixa Cultural
Exposição "Recife Através dos Tempos", na Caixa CulturalFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
Exposição "Recife Através dos Tempos", na Caixa Cultural
Exposição "Recife Através dos Tempos", na Caixa CulturalFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

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