Lecticia Cavalcanti
Lecticia CavalcantiFoto: Cortesia

 

Nesse fogo verde
De cinza tão branca
Que se apure um mel
De brilho sem par
Joaquim Cardozo
(Espumas do Mar)
Na cultura indígena, antes da chegada do colonizador português, doce era apenas o mel de abelha. Tomado pu­ro, como gulodice. Ou em bebidas fermentadas, preparadas de muitos jeitos. Às vezes, apenas combinan­do mel e água. “Com mel pode-se prepara licor, sem levá-lo ao fogo, apenas misturando-o com água da fonte e deixando-o ao relen­to”, observou Johan Nieuhof (em Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil, 1682). Outras vezes, misturavam aquele mel a raízes e frutas. Com a mandioca fa­ziam aipij, caracu, caxiri, paiauru, tikira e cauim (a mais conhecida de todas as bebidas). Com batata-doce faziam ietici. Com milho, abatií, aluá e aruá. Com pacova, pacobi. Com ananás, na­nai. Com caju, acaijba. Com jenipapo, ianipapa. Para as crônicas da época, eram bebidas deliciosas no sabor, mas repugnantes na preparação.

É que as raízes e frutas usadas nesse preparo, primeiro mastigadas, acabavam depois cuspidas em jarras de barro, mistura­das com saliva. Para dar início à fermentação. “As mulheres é que fazem a bebida. Tomam as raízes de mandioca que fervem em grandes potes. As moças sen­tam-se ao pé e mastigam essas raízes”, assim des­creveu Hans Staden (em Viagens e aventuras no Brasil, 1554) o preparo do cauim. “Índias moças”, segundo Gândavo (em Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil, 1576). Ou “velhas”, segundo Marcgrave (em História Natural do Brasil, 1648).
Steinen (Entre os povos nativos do Brasil Central, 1884) se referia a essas bebidas como “ponche de ptialina”. Só para lembrar, a palavra “ponche” tem raiz no Indostão (atual Índia), onde “pânch” significava “cinco”, o número dos ingredientes que entravam em sua composição - mel, aguardente, canela, chá, limão. De lá vieram para a Inglaterra (“punch”), França (“ponche”) e ganharam o mundo. Cada tribo fazia sua própria bebida.

 Nas festas, iam os da terra em peregrinação, de uma oca a outra, bebendo tudo que lhes fosse servido. Durante a noite inteira cantavam e dançavam entre fogueiras. Até a exaustão. “Bebem sem comer e comem sem be­ber”, escreveu Câmara Cascudo (História da Alimentação no Brasil, 1983). Depois, passou a concorrer com as poucas bebidas que o português trouxe com ele, para o Brasil colônia - um fermentado (vinho), um destilado (bagaceira) e sangria (mistura de vinho, água, açúcar e rodelas de limão). Para os nossos índios, essas bebidas, vindas de tão longe , eram “cauim-tatá” (bebidas de fogo).

 

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