Lecticia Cavalcanti
Lecticia CavalcantiFoto: Cortesia

 

Dedicamos este mês de janeiro às saladas. De folhas e de frutas. Aqui falamos de sua origem, história, evolução. E de como são próprias para o nosso verão tropical. Nesse último artigo da série, vamos homenagear aquela que foi considerada pela International Society of Epicures (Paris) “a mais importante receita americana dos anos 50” - a Caesar Salad.

O nome, diferente do que se possa pensar, não é homenagem ao grande imperador romano Caius Julius Caesar (100 a.C.- 44 a.C.). O mesmo que defendeu homens simples contra o poderoso Cneu Pompeu (106 a.C. - 48 a.C.), se apaixonou por Cleópatra, foi traído pelo tão querido Brutus e acabou sangrando a golpes de punhal. Em gre­go, língua que falava em casa, di­zendo suas últimas palavras, Kai su Teknon? (Até tu, meu filho?). Mas essa é outra história. Certo é que o Caesar da salada, apesar de também romano, seria outro, Caesar Cardini (1896-1956) - que, junto com seu irmão Alex, deixou Ro­ma para fundar o “Caesar Place” (ho­je, Hotel Caesar’s). Em Tijuana, jun­to ao oceano Pacífico, pertinho da próspera San Diego. A explicação para um hotel tão luxuoso co­mo esse, no extremo norte do Méxi­co, é simples. Assim se dando por­­que, nesse tempo, vigorava nos Estados Unidos a Lei Seca - que proibia fabricação, importação, transporte, venda e sobretudo consumo de bebidas alcoólicas no país. Uma lei de 1917 que só foi revogada, 16 anos depois, pelo presidente Franklin Delano Roosevelt. Grandes fortunas foram feitas nessa época, com o comércio clandestino de bebidas. Ficaram famosos Al Capone, Lucciano e outros nomes da máfia. Sem contar que também floresceu a venda livre dessas bebidas em cidades da fronteira do Canadá e do México. Entre elas, Tijuana - onde, nos fins de semana, artistas de Hollywood, apostavam nos cassinos, frequentavam corridas de cavalo e exercitavam a arte de beber. Foi ali que tudo aconteceu.

Corria o ano de 1924. E festejava-se o feriado nacional de 4 de julho - data em que os americanos celebram a separação de suas colônias do Império britânico, no distante 1776. Equivalente ao nosso 7 de setembro. O hotel de Caesar Cardini estava cheio de escritores, políticos, atores e gente disposta a gastar rios de dinheiro. Tantos que já começava a faltar comida, nas despensas. E os hóspedes, sem nem suspeitar disso, faziam barulho para demonstrar impaciência com a demora na chegada dos pratos. O chef, conterrâneo do dono do hotel, se viu então obrigado a improvisar com os poucos ingredientes que lhes restavam. Para manter as aparências, anunciou que iria servir o mais novo prato do cardápio. Preparado por ele em um palco, à frente de todos os clientes, com o próprio dono do hotel ao seu lado. Um verdadeiro show. Começaram então por fazer o molho com anchovas, azeite, molho inglês, mostarda, sal, pimenta, suco de limão, creme de leite. Ainda acrescentando gemas cruas de ovo (logo proibidas, pela Saúde Pública de lá, por produzir contaminação de salmonela). Em seguida misturaram, esse molho, à folhas de alface que estavam em uma grande tigela de vidro. E decoraram tudo com croûtons e queijo parmesão, cortado em lascas. Deu certo. Era improvável, mas deu mesmo certo. Aplausos ge­rais, quando provaram o prato. Ceasar (Cardini), que de inocente não tinha nada, aproveitou e batizou a nova receita com seu próprio nome.

Ao Brasil chegou só nos anos 80. Quando já era sucesso no resto do mundo. Prenúncios gloriosos da glo­balização. Que uma das mais im­portantes receitas americanas, quase uma doce ironia, nasceu no México, criada por um chef italiano, para agradar japoneses, americanos e outros clientes do mundo todo.

 

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