Lucy Cavalcante, Chiara Rêgo Barros e Gabi Ramos
Lucy Cavalcante, Chiara Rêgo Barros e Gabi RamosFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

Se lugar de mulher é onde ela quiser, que seja num ambiente em que possam levantar com orgulho suas taças... de cerveja! Isso mesmo. A velha conhecida das rodas masculinas, apelidada popularmente de loira gelada, está mais para amiga do que desafeto de quem elegeu essa bebida como a preferida não só em cima do balcão, mas por trás dele em todo seu processo mercadológico. Significa que há, sim, mais presença feminina em etapas de produção, venda, consumo e educação com o desafio de não distinguir gênero, mas ocupar o espaço sem olhares atravessados.

Embora não haja dados que englobem toda essa participação, a mudança se faz notar culturalmente, por quem passou a discutir cada vez mais o assunto de igual para igual. Para ter uma ideia, o Recife tem uma confraria chamada Maria Bonita com 42 mulheres do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, sendo sete coordenadoras, com programação de lançamentos, degustações, concursos e palestras que discutem a cerveja nas suas diferentes possibilidades. Uma das ações marcantes do grupo aconteceu ano passado com a apresentação do título colaborativo Empoderar, Libertar e Agir (ELA), com 10,5% de teor alcoólico, feito só por mãos femininas de todo o Brasil, numa resposta às dificuldades de quem vivencia esse meio.

“Foi um desabafo ao dizer que podemos fazer o que quisermos”, solta a analista de sistemas Lucy Cavalcante, que mantém a sede por uma boa breja no encontro com amigas ou no atendimento direto aos clientes da loja Capitão Taberna, na Zona Norte, onde foi feita a foto da capa. Ela, aliás, segue com a tradição da casa de contratar mulheres desde 2012. “Por aqui, elas aparecem com frequência e entendem tanto quanto qualquer homem”, diz o só­­­­cio do lugar, Rafael Petribu.

Um rótulo curioso é o 803, um black rye IPA, com 7,5% de álcool, produzido pela Perro Libre, de Porto Alegre, em comemoração ao dia 8 de março. Isso sem falar no equilibrado Maracatu American IPA, da cervejaria pernambucana Patt Lou. Esse último é um dos três da marca dirigida por Patrícia e Luiz Sanches. Ela, enfermeira por formação, começou a se interessar pelo assunto na brassagem, nome dado à produção, da cerveja do próprio casamento. Hoje, além de empresária, é ainda técnica cervejeira, sommelier e diretora da Associação dos Cervejeiros Artesanais de Pernambuco (Acerva-PE). “É algo movido por paixão e com o prazer de repassar as técnicas”, destaca.

Novos papéis
Mas há setores desconhecidos do público em que essa presença se mostra bem atuante. No bastidor de uma fábrica, onde muitos homens questionam a força para se carregar a saca de malte, as mãos femininas não se deixam intimidar. Segundo a sommelier Chiara Rêgo Barros, esse ambiente ainda precisa ser mais democrático. “É um pessoal que não aparece tanto. Eu mesma trabalhei com mais três mulheres numa fabricação onde só existia dois homens”, lembra. Hoje, como professora do curso de aperfeiçoamento de tecnologia cervejeira do Senai, ela aponta a pouca presença nas salas de aula. “Numa sala de 25 há, pelo menos, três mulheres. E por que elas não estão chegando, se há interesse?”, contesta.

Nas armadilhas do dia a dia, Chiara já passou por situações como ir a uma feira do setor com um amigo e, ao fazer perguntas técnicas para o vendedor de equipamentos, não receber uma só resposta. “Todo retorno era para o meu colega, que nem estava tão por dentro do assunto. No final, ainda escutei: ‘esse evento é ótimo, dá até para levar a esposa’”, relata.

No entanto, a história conta um passado bem diferente, há sete mil anos, quando a divisão de trabalhos indicava ao homem a tarefa de caçar, enquanto suas parceiras ficavam em casa preparando pão e bebida fermentada. O cenário mudou bastante ao longo do tempo, principalmente com a revolução industrial. “Mas era uma espécie de tarefa de casa que, hoje, talvez, esteja nos nossos genes”, brinca a sommelier e mestre em estilos, Priscilla Colares, de Belo Horizonte. Sua curiosidade no assunto surgiu de uma etapa básica a qualquer neófito, o da experimentação.

Algo que a também sommelier Gabi Ramos sabe bem, por ter se especializado no tema para então trabalhar como consultora de cardápios, produção de palestras e harmonizações. “Há, de certa forma, uma organização para as ações acontecerem. As meninas participam e isso é só uma das etapas. Também não acho que a indústria deva distinguir o público, o paladar não tem gênero, é mais uma questão de espaço”, defende ela, que é co-fundadora do Maria Bonita ao lado de Patrícia Sanches.

Lucy Cavalcante, Chiara Rêgo Barros e Gabi Ramos
Lucy Cavalcante, Chiara Rêgo Barros e Gabi RamosFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
Segundo a sommelier Chiara Rêgo Barros, esse ambiente ainda precisa ser mais democrático. “É um pessoal que não aparece tanto. Eu mesma trabalhei com mais três mulheres numa fabricação onde só existia dois homens”, lembra.
Segundo a sommelier Chiara Rêgo Barros, esse ambiente ainda precisa ser mais democrático. “É um pessoal que não aparece tanto. Eu mesma trabalhei com mais três mulheres numa fabricação onde só existia dois homens”, lembra.Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
“Foi um desabafo ao dizer que podemos fazer o que quisermos”, solta a analista de sistemas Lucy Cavalcante
“Foi um desabafo ao dizer que podemos fazer o que quisermos”, solta a analista de sistemas Lucy CavalcanteFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
A sommelier Gabi Ramos, que é co-fundadora do Maria Bonita ao lado de Patrícia Sanches
A sommelier Gabi Ramos, que é co-fundadora do Maria Bonita ao lado de Patrícia SanchesFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
Se lugar de mulher é onde ela quiser, que seja num ambiente em que possam levantar com orgulho suas taças... de cerveja!
Se lugar de mulher é onde ela quiser, que seja num ambiente em que possam levantar com orgulho suas taças... de cerveja!Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco
Cervejas artesanais
Cervejas artesanaisFoto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

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