Produção, bem realizada tecnicamente, faz crítica ao mito da meritocracria, tão presente na sociedade
Produção, bem realizada tecnicamente, faz crítica ao mito da meritocracria, tão presente na sociedadeFoto: Pedro Saad/Divulgação

E se houvesse um mun­do em que a sociedade fosse igualitária e justa, mas só uma pequena parcela da população fosse merecedora disso? Em um universo futurista pós-apocalíptico, o planeta é um local devastado em que o Continente é um reduto de miséria e o Maralto é o lugar para onde todos os jovens que completam 20 anos desejam ir. Essa é a história que serve de enredo para a trama da série “3%”, primeira produção brasileira da Netflix, criada por Pedro Aguilera e dirigida por Cesar Charlone, Daiana Giannecchini, Jotagá Crema e Dani Libardi.

“3%” é uma série tecnicamente muito bem produzida. A direção de arte somada a um roteiro bem construído e com uma história cheia de potencial para novas temporadas faz dela um bom produto de entretenimento. Apesar de atuações fracas, alguns personagens conseguem roubar a atenção do público, como é o caso de Joanna (Vaneza Oliveira) e de Júlia (Mel Fronckowiak). A crítica subliminar ao mito da meritocracia social - que pressupõe que todos são capazes de serem bem sucedidos, independentemente de fatores sociais externos - vem a ser o ápice da narrativa.

A produção é mais uma para uma recente cadeia de séries de ficção científica tomando como base cenários repletos de tecnologias avançadas. O atual boom desses tipos de seriados reflete um aumento no interesse de emissoras e produtoras em investir nesse gênero, ao ponto de haver canais, como por exemplo o Space e o SyFy, especializados no gênero. Além do crescente entusiasmo do público pela ficção científica, o avanço tecnológico do audiovisual vem contribuindo para a criação.

“A ficção sempre foi dependente de efeitos especiais para que fiquem bacanas. Muitas séries tentaram ser realizadas e não deram certo porque tinham pouco dinheiro e, por isso, não poderiam ser bem feitas. Com o tempo, ficou mais fácil e menos custoso. Mas não basta investir apenas em efeitos de computador, é preciso também uma boa direção de arte”, afirma Bruno Nogueira, professor da Universidade Federal de Pernambuco.

“Fazer série é algo custoso e precisa de risco - o que é complicado no modo de consumo tradicional que o Brasil está acostumado. Se a TV norte-americana fosse depender disso nunca faria séries como ‘Supergirl’ que só gera audiência em um segmento específico do público”, complementa.

As séries de ficção científica também refletem muito de como estabelecemos nossa relação com a ciência e com as novas tecnologias, além de como elas interferem em nossas relações interpessoais. “Se pensarmos 20 anos atrás, hoje vivemos com uma tecnologia que acreditávamos ser impossível. A gente gosta de histórias com as quais podemos nos relacionar de alguma forma; nós usamos a tecnologia, mas não entendemos direito e acabamos ficando muito refém de boatos de internet que aguçam com a nossa paranoia. E a ficção científica brinca muito com isso, com o desconhecido. E sempre tivemos muito medo do que não conhecemos”, explica Bruno Nogueira.

Falta de referência

O Brasil nunca foi referência nem possui uma história na produção de séries de ficção científica, apesar do surgimento recente de “3%” e de “Supermax”, na Globo. Nem quando o olhar se volta para o cinema nacional, é possível identificar obras que tenham um grande destaque no segmento. “No geral, o Brasil sempre teve muita dificuldade em determinar o gênero de nossas produções. Na série é mais complexo porque não temos tradição neste tipo de produto. ‘3%’ vem agora quebrar barreiras e mostrar o potencial de abrir um terreno novo para um novo tipo de narrativa. Se a Netflix conseguir transpassar esse ranço do público brasileiro de ver atuação, produção de arte e fotografia brasileiras talvez a gente consiga ver uma outra coisa surgindo”, aponta o professor.

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