Solange Paraíso
Solange ParaísoFoto: Alfeu Tavares

Quando, aos dezoito anos, tive que escolher um curso universitário, foi difícil. Seguindo o status quo das profissões históricas, e já saben­do dos meus pendores pa­­ra a área de saúde, inscre­vi-me no vestibular para Medi­cina e não fui aprovada. No ano seguinte, com muito esfor­ço, pude frequentar um cursinho. Deixei para me ins­crever no vestibular no úl­­timo dia e uma luzinha a­cendeu, fazendo-me escolher Nutrição, sem saber em que áreas eu poderia atuar após a formatura, e sem conhecer um nutricionista, sequer...
O curso durou quatro anos em período integral, após os quais adentrei num mun­do em que tudo me convidava a saber mais, ser mais e auxiliar mais as pessoas que precisavam ter a alimen­tação saudável como um dos pilares da reeducação dos seus hábitos de vida, sua cura ou, minimamente, o controle de alguma doença que dependesse de orientações dietéticas.
Em 1977 as áreas de atuação dos nutricionistas resumiam-se aos refeitórios institucionais situados nas indústrias e estabelecimentos afins (Coletividade Sadia), nos hospitais e ambulatórios (Coletividade Enferma) e nos Programas de Suplementação Alimentar para a população com algum risco de desenvolver as chamadas doenças carenciais - anemia ferropriva, desnutrição proteico-calórica e hipovitaminose A (Saúde Pública). Além dessas, a docência, a qual se expandiu por todos os cantos do país a partir da criação de novos cursos.
Muito tempo depois de cursar um Mestrado em Nutrição em Saúde Pública finquei os pés de vez na Promo­ção de Saúde, a qual me fascina. Costumo dizer que to­do profissional de saúde merece pelo menos uma vez na vida atuar nesta área, à qual se contrapõe àquelas em que o público-alvo se constitui de indivíduos acometidos de algum mal. Mas hoje, diante do “boom” de novos atrativos para os jovens formandos (nutrição estética, nutrigenômica, nutrição esportiva, marketing, fitotera­pia, nutrição ortomolecular, personal diet, etc.) Promo­ção de Saúde termina sen­do uma área sem glamour, como precisei dizer outro dia a uma estagiária querida.
Considero-me privilegiada pelos mestres que tive: Nélson Chaves, Naíde Teodósio, Malaquias Batista, Cecília di Láscio, Emília Aureliano e tantos outros, sábios, idealistas e comprometidos com o resgate da justiça social. Por causa deles e por eles, comprometi-me também com o papel de educadora em saúde, o qual já se antecipara por influência materna. Ser nutricionista é desafiador. Mas quem disse que promover cidadania, incentivar mudanças e quebras de paradigmas conformistas seria fácil? Na área da saú­de, como nas demais, li­dar com as “faltas” é desespe­rador, mas lutar pela igual­dade de direitos por meio do estímulo ao empoderamento das famílias e comunidades vale a pena.
Uma das atividades mais gratificantes para o nutricionista é o apoio à docência. Por muitos anos trabalhei na UFPE e acompanhei turmas de estagiários da graduação em Nutrição, um dos motivos pelos quais busquei o grau do Mestrado, e estendi até há pouco tempo a atuação como preceptora em atividades de promoção de saúde no Tribunal de Justiça. Orientar alunos na prática profissional é instigante, tanto pela iniciação deles, quanto pela retroalimentação às instituições que os formam.

 Posso dizer que, dentre tudo que fiz nestes longos trinta e oito anos, estar com pessoas desabrochando para a vida e poder formar mentes críticas e realizadoras foi algo que legitimou a escolha que fiz lá no passado, quando eu mesma era um ser imaturo, idealista, atrevido e com muita sede de conhecimento.
P. S. dedico este artigo às mestras Emília Aureliano (in memorian), entusiasta da educação nutricional, e Zélia Milet, que me fez gostar de atuar em Coletividade Sadia, e às colegas Marisilda Ribeiro e Adelaide Rê­go, companheiras de mui­tas lutas na profissão.

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