Ney Cavalcanti
Ney CavalcantiFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Na última semana, uma resolução do nosso Governo foi manchete na imprensa de todo o País. Nela ficou determinado que a indústria promova uma importante redução na quantidade de iodo que é colocado no nosso sal. Valendo ressaltar que as nossas necessidades diárias daquele mineral são em torno de 150 mcg. Está presente em vários alimentos, como peixes e outros frutos do mar, leite, laticínios, ovos e comidas com sal. A sua deficiência, segundo alguns, poderia aumentar o surgimento de várias doenças - câncer de mama, na próstata, endométrio e no ovário estariam entre elas.

Estas afirmações não são aceitas pela maioria da comunidade médica. No entanto, é definitivamente estabelecido que as suas quantidades são importantes para o surgimento das doenças tireoidianas. O iodo é matéria-prima essencial para a síntese dos hormônios desta glândula. Mais de 50% da composição do T3 e do T4 é de iodo. Nas regiões onde a sua ingesta é menor do que a desejável, a prevalência é muito maior.

Bócio, que é o aumento da glândula, e o hipotireoidismo, que é a diminuição da função da tireóide, são muito mais frequentes. Também ocorre um maior número de nascimento de crianças com déficit mental. Afinal, uma menor quantidade de matéria-prima durante a gestação reduz a produção dos hormônios da tireóide.

Estes hormônios são essenciais para o desenvolvimento do feto, principalmente do seu cérebro. Como 50% da formação daquele órgão ocorre na vida intra-uterina, uma vez ela sendo prejudicada, o dano é definitivo. O déficit da ingesta de iodo ocorre principalmente nas áreas em que o solo é pobre no mineral, regiões afastadas do litoral.

Os malefícios do déficit de iodo são conhecidos há mais de século. Em 1900, os EUA determinaram que o iodo fosse adicionado no sal que consumimos. O Brasil, cinquenta anos depois, fez o mesmo. Apesar disso, a deficiência de iodo é um problema não resolvido. Níveis desejáveis na população ainda estão longe de ser atingidos. As estimativas são que mais de um bilhão de pessoas no mundo apresentem déficit desse mineral. Paradoxalmente, inclusive a situação tende a se agravar em alguns países.

Nos Estados Unidos, um dos países que mais precocemente colocou iodo no sal, o número de deficientes aumentou de 2,6%, em 1976, para 11,7%, em 1994. E o que mais preocupou foi que nas grávidas o aumento foi de 1% para 7%. Muito embora não se saiba exatamente o motivo, acredita-se que a diminuição da consumo do sal seja uma das razões. Por outro lado, desde há muito se sabe também que a ingesta exagerada de iodo é maléfica para a tireóide. O exemplo clássico é o Japão.

Por conta do grande consumo de alimentos do mar, é maior o consumo daquele mineral e maior também a incidência de doenças tireoideanas. Uma outra doença que tem a sua incidência aumentada por ingesta exagerada e crônica do mineral é a Tireoidite de Hashimoto, uma patologia que tem crescido. O Ministério da Saúde, após constatar níveis elevados na população, determinou que a indústria reduza de forma significativa a quantidade de iodo no sal. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia ponderou que seria mais correto diminuir o consumo do sal do que a quantidade de iodo que nele se coloca. Afinal, o consumo de sal está relacionado a doenças cardiovasculares (hipertensão, infarto, AVC, etc).

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