Solange Paraíso
Solange ParaísoFoto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Escrever sobre saúde e nutrição requer uma boa reflexão, sobretudo se nos situamos como personagens desse métier, exercendo a profissão de nutricionista há quase quarenta anos. E mais: mantendo a tônica da interlocução com um público variado em todos os aspectos: faixa etária, condição socioeconômica, grau de escolaridade, procedência geográfica, capacidade crítica, existência de agravos à saúde, etc.

As informações ligadas aos cuidados com a saúde chegam hoje à população de maneira dinâmica, tal como ocorre com a alimentação e a nutrição. A dificuldade reside na confiabilidade das fontes e na constatação de que o conhecimento tem evoluído de tal forma que, muitas vezes, a nossa capacidade de apreensão e síntese não acompanha. Paralelamente à produção do conhecimento científico que está, a priori, a serviço da Humanidade, há os interesses econômicos que permeiam toda a cadeia produtiva dos alimentos e culminam com a sedução para o consumo, levando a graves consequências para a saúde quando não praticados de forma ética.

Dizer que o poder aquisitivo e o nível de informação das famílias, são os únicos fatores que definem as suas escolhas acerca da alimentação saudável, é ficção. Na base do hábito e do comportamento alimentar dos indivíduos, das famílias e das comunidades está um conjunto de fatores complexos e interligados, já que o homem é um ser social. A visão meramente biológica e tecnicista da alimentação restringe-se à importância da composição nutricional dos alimentos, em detrimento da influência do ambiente, da cultura, do modo ímpar que cada indivíduo se situa no mundo, da percepção do seu próprio corpo, do simbolismo das práticas alimentares, do desejo, da saciedade, da das mídias que produzem e veiculam a publicidade de alimentos, etc.

Passou o tempo em que ao nutricionista bastava estudar a ciência e aplicá-la mediante prescrições objetivas, fechadas, estritas, num modelo de cardápios equilibrados qualitativa e quantitativamente. Desde há muito que estas prescrições estanques (embora providas de muita ciência e competência técnica), ao invés de levar ao sucesso, redundaram em frustração para muitos colegas. Não que os currículos das escolas de graduação em Nutrição fossem limitados - algumas disciplinas como psicologia, sociologia, geografia econômica e educação nutricional também estavam na base, junto às disciplinas da área biológica. Neste pormenor orgulhamo-nos dos professores e das diretrizes curriculares vigentes na queridíssima Universidade Federal de Pernambuco, instituição de referência nesta área, até hoje.

Como tudo o mais, as abordagens dos profissionais que atuam na área da saúde precisam evoluir. Precisamos saber quem é o outro, sujeito das nossas orientações (repudiando, desde sempre, a visão reducionista de que “eu ensino e ele aprende”). Precisamos saber o que lhe move: suas emoções, suas crenças, seu status quo na vida que palpita e lhe convida a rodopiar nesse frenesi de consumo e sensações, que o escritor e filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman batizou de Vida Líquida. Muitos cidadãos não enxergam a omissão daqueles que deveriam lhes representar e garantir o direito à vida saudável em todas as dimensões - física, mental, social, emocional e espiritual, e correm o risco de se alienarem...

Promovamos, pois, o empoderamento para o legítimo exercício da cidadania, e, assim, poder comemorar o dia da Saúde e da Nutrição no próximo dia 31 de março, como instituído pelo ministério da Saúde.

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