Cônsul da Eslovênia Rainier Michel
Cônsul da Eslovênia Rainier MichelFoto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Quando o primeiro contêiner vindo da Eslovênia desembarcar em Suape, no próximo mês, trazendo vinhos e azeites trufados, e voltar ao porto de Koper levando a cachaça pernambucana para as terras eslovenas e europeias, estará estabelecida uma nova conexão de negócios. A aproximação entre o Estado e o país da Europa Central - entrada para o Velho Continente - vem sendo costurada há três anos. Essa troca entre culturas tão diferentes é fruto de um trabalho de Diplomacia Econômica, encabeçado pelo Consulado da Eslovênia no Estado. Para o Cônsul Rainier Michel, a via dos negócios é um caminho importante para consolidar as relações entre as localidades e gerar oportunidades.

O que é a diplomacia econômica e como ela se diferencia?

É a forma de você tratar as relações diplomáticas dos países com foco nas relações econômicas. A atuação diplomática era muito focada na parte de relacionamento, não existia esse viés mais econômico. Hoje, esse enfoque ganhou força com Mercosul, com União Européia. Essa abordagem é muito utilizada em países menores, que precisam de uma agilidade maior, estruturas mais enxutas, então o diplomata tem que gerar negócios.

Como a diplomacia econômica pode trazer benefícios para economias como a de Pernambuco?
Pernambuco é o hub do Nordeste e a Eslovênia representa esse hub de entrada para os produtos de Pernambuco na Europa. A diplomacia econômica ajuda a vender essas potencialidades.

Quais são essas potencialidades?
Pernambuco é uma região geograficamente estratégica para a entrada e distribuição de produtos. Tem um porto muito bom (Suape), um mercado consumidor qualificado, um perfil exportador interessante. As áreas de TI, design (sobretudo automotivo, o polo gesseiro e de frutas também podem ser bem explorados com envio de produtos para a Europa, via porto de Koper, na Eslovênia, que é uma porta de entrada e de distribuição de produtos para o continente.

Por outro lado, a Eslovênia tem uma expertise nas áreas de sustentabilidade, energia sustentável, TI (que pode ser explorada pelo Porto Digital) e logística (até pela localização geográfica na Europa Central), alguns pontos de intercâmbio que podem ser desenvolvidos.

Esse trabalho de aproximação entre Pernambuco e Eslovênia começou por iniciativa do consulado. Vocês enxergam similaridades entre as duas localidades?

Sim. Tem a questão da geografia, porque ambos os locais são estratégicos para o comércio, então é importante tornarmos esses dois hubs comunicantes. Pernambuco tem uma influência européia muito forte e esse potencial precisa ser melhor explorado. Os bordados produzidos em Orobó são muito semelhantes aos produzidos na cidade de Idrijia, na Eslovenia. Ano passado houve um encontro mundial desse tipo de bordado, mas Pernambuco não estava. oportunidades.

Ainda há oportunidades de intercâmbio entre o setor metalmecânico esloveno e o polo naval pernambucano e do polo gesseiro, que pode ser utilizado no segmento de restaurações de imóveis históricos na Europa, por exemplo.

Nossa intenção é que, em cinco a dez anos, Koper se torne um dos 10 maiores portos de movimentação de cargas de Suape.

Na sua opinião, as potencialidades do Estado têm sido vendidas adequadamente para o exterior?

 Pernambuco ainda é extremamente pouco explorado. As entidades representativas de indústria e comércio locais deveriam trabalhar de forma convergente. A gente vê ações bem organizadas, mas falta essa convergência.

Como a diplomacia econômica poderia ajudar a explorar melhor esse potencial?
Recentemente, tivemos a visita dos diplomatas da União Europeia. Foi importante, mas existe sempre a possibilidade de a gente trabalhar ações de forma mais coordenada.

Temos 38 escritórios consulares em Pernambuco, tivemos a inauguração recentemente do polo eólico de Araripina, mas os consulados não foram convidados. É preciso incluir os consulados, embaixadas nessas programações, mas na maioria das vezes nós que ficamos correndo atrás de informação.

No interior existem muitas riquezas, como as frutas. Existem gargalos logísticos, mas o Estado não divulga isso para as embaixadas, consulados. Projetos como o estudo estratégico Pernambuco 2035, desenvolvido ainda no governo Eduardo Campos, não são enviados para as representações. Isso era muito importante e pouco dispendioso.

Do ponto de vista dos setores produtivos, o que pode ser feito?

Por exemplo, os sites têm que estar em inglês, tem que ter material promocional em outros idiomas, porque temos um bom potencial, mas concorrência é grande.

O Consulado da Eslovênia está diretamente envolvido com a organização do primeiro grupo de Think Tank do Nordeste. Como vai funcionar?

Estamos trabalhando com as representações consulares, empresas, consultorias e a área parlamentar. Será um grupo que vai reunir todos esses atores para um diálogo permanente e sustentável, e geração de conteúdo. Em outubro, estamos planejando o primeiro evento.

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