José Neves Cabral
José Neves CabralFoto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

Até esta quarta-feira (7) à noite já haviam sido vendidos 18 mil ingressos para Sport x Figueirense, domingo (11), na Ilha do Retiro. Mais que um prenúncio de casa cheia. O torcedor quer ir a campo jogar com o time. Depois de uma tragédia como a da Chapecoense, o futebol volta a respirar, como a vida nos impõe. Tenho pra mim que esse esporte carrega a fragrância da infância dos homens. É preciso voltar a “brincar” em torno da bola para, ao menos naqueles 90 minutos de jogo, ser feliz, como só as crianças sabem ser.

Fico imaginando a ansiedade que domina os garotos. O lóbi para convencer o pai a levá-los para o jogo. A mãe, temerosa, por que “vai muita gente”. Lembro do menino que eu fui, que saía da Ilha do Retiro agarrado na camisa de “Seu Cabral”, com medo de me perder. Assistíamos aos jogos na arquibancada embaixo do placar.

Jogo começando e aparecia Tio Assis, o mais novo dos Cabral, com André. E tome rolete de cana, cachorro quente. Para os meninos, o jogo não é apenas o espetáculo da bola. É também um banquete. A caminhonete ficava estacionada na beira do Rio Capibaribe. Se o Sport vencesse, o programa era esticado. Lá íamos nós em cima da carroceria, levando abraços do vento.

Um maltado nas Galerias do Recife Antigo, em meio àquele barulho das radiolas de ficha dos prostíbulos que dominavam o bairro. Ou, então, uma sopa de cabeça de peixe no Maxime ou no Pra Vocês, onde o velho garçom rubro-negro, o saudoso Chico, nos recebia com a presteza de sempre. Seu Cabral, bom de garfo que só ele, tomava umas duas Pilsen e encerrava com uma posta de peixe à portuguesa, a pimentinha temperada servida numa tacinha.

Já adulto, eu ia cobrir os jogos do Sport, entrava no gramado e só sossegava quando o avistava lá na arquibancada. Camisa aberta, bonachão, conversando com a turma que ocupava aquele pedaço de arquibancada que de tanto frequentar parecia que era dele. Já doente, ele foi deixando de ir aos jogos. Ficava em casa, sentado na cadeira dele no terraço, me esperando para conversar sobre a rodada. Ouvia os jogos pelo rádio. Em 2004, ele se foi. E eu chegava em casa e encontrava a cadeira vazia e a luz do terraço apagada.

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