José Neves Cabral
José Neves CabralFoto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco

Cuca alegou questões pessoais para sair do Palmeiras após a conquista do título brasileiro. Mas, numa entrevista, em dezembro, deixou a pista de qual poderia ser o real motivo. Ele assumiu o time com o elenco já montado. Indicou apenas três atletas. O restante dos contratados veio pelas mãos do executivo Alexandre Mattos. Mesmo campeão, o treinador e ex-jogador do clube pediu pra sair, um fato estranho para um técnico campeão. Geralmente, nesses casos o comandante é chamado para renovar e ganha até um aumento.

Pouco depois do anúncio de que o treinador deixaria o clube, o ex-jogador e agora comentarista Neto contou em seu blog detalhes de bastidores. E revelou a queda de braço entre Cuca e o executivo. O fato suscita uma questão importante e que vem sendo deixada de lado na armação das equipes pelos dirigentes eleitos: como deve ser o procedimento na contratação de jogadores? O clube deve aceitar passivamente as indicações do técnico ou simplesmente ignorá-las, optando por um projeto próprio?

O duelo de bastidores entre Cuca e Mattos durou todo o Campeonato Brasileiro. Como responsável, o treinador montou uma equipe com alguns jogadores da casa e não os contratados pelo executivo, que o pressionava para escalar os atletas.

Devido ao comportamento de treinadores e executivos de futebol nos últimos anos, ambos tornaram-se suspeitos. Para aceitar que um executivo seja responsável pela contratação de atletas o presidente do clube tem que ter extrema confiança no profissional. O mesmo se pode dizer do treinador. Tudo por que os laços que ligam técnicos e executivos a empresários de futebol tornaram-se fortes. Geralmente, o treinador já assume a equipe impondo uma lista de "reforços". Todos clientes do empresário que o colocou naquela agremiação. Da mesma forma, os executivos começaram a se desgastar nos últimos anos, exatamente pela relação promíscua com os agentes.

Essa "cultura" chegou até a Seleção Brasileira, cujos dirigentes também estavam acostumados a "aceitar" uma relação de convocáveis indicada por empresas que patrocinavam amistosos da Canarinho. O acerto para assumir a equipe verde-amarela entre Tite e a direção da CBF passou por uma dura negociação em torno desse tema. O treinador não queria assumir o risco de escalar atletas sem o seu aval técnico. E, ao que parece, ele ganhou a parada, diferente de Dunga, seu antecessor, e de outros que já estavam acostumados a essa relação de subserviência com os cartolas.

A questão gera dúvida dos dois lados porque expõe a fragilidade ética das relações entre executivos, treinadores e empresários de futebol. Também mostra a falha nos projetos de formação de equipe. Os clubes não têm um metodologia pronta para "fabricar" seus próprios atletas, os que surgem são exceções a uma regra confusa.

Como ganhou o título brasileiro, é provável que Cuca tenha razão em sua posição de sair após a conquista. Mas, às vezes, o técnico também não tem razão, exatamente por trabalhar com os mesmos vícios do dirigente remunerado. A ressalva que alguns clubes fazem na negativa aos treinadores é de que eles indicam os atletas e podem estar "ganhando comissões" dos agentes. E quando o time não engrena os treinadores vão embora e o deixam com a responsabilidade de arcar com as despesas das rescisões. Daí, uma avalanche de causas trabalhistas se amontoam na Justiça. A conta demora, mas chega e pode até inviabilizar financeiramente o clube.

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