Renata se encantou com a organização e a tranquilidade de Durazno, no Uruguai
Renata se encantou com a organização e a tranquilidade de Durazno, no UruguaiFoto: Cortesia

Imagine a situação. Em um momento, você tem 16 anos e estuda em uma escola pública do distrito de Jabitaca, em Iguaracy, no Sertão do Pajeú. Uma pequena cidade com cerca de 12 mil habitantes e distante 358 km do Recife. De repente, você já está em Saint Mary, cidade do estado de Ontário, no Canadá. Vivendo durante cinco meses em um lugar que você não conhece, onde as pessoas falam um idioma diferente do seu, tendo que estudar em uma escola onde você não conhece ninguém e tendo que se adaptar a uma cultura bem diferente da sua.

Essa foi a experiência vivida pela pernambucana Luzia Severina de Farias Neta, hoje com 17 anos, que fez intercâmbio no Canadá, mas bem que poderia ser a história dos mais de cinco mil estudantes pernambucanos que, desde 2011, foram enviados pelo Programa Ganhe o Mundo (PGM), do Governo do Estado, para estudar no exterior durante um semestre letivo.

A mudança radical foi sentida em diversos aspectos, a maioria bastante corriqueiros, na vida de Luzia. “Uma coisa que eu achei interessante no costume deles é a questão da alimentação. A gente aqui tem a refeição completa – arroz, feijão, carne. Lá, na hora do almoço, eles comem hambúrguer, pizza, refrigerante. Você sofre um pouquinho”, lembra a estudante. Um fator que chamou bastante a atenção, de forma positiva, foi a conscientização dos canadenses no cuidado com a cidade. “Eles têm uma preocupação muito grande com a questão do meio ambiente. Você não via papel no chão”, diz.

Em relação à estrutura educacional que ela encontrou durante o intercâmbio, a opinião de Luzia endossa a posição do Canadá como maior parceiro do Estado de Pernambuco no recebimento de alunos do PGM. “Na questão da educação, tem toda a estrutura para receber alunos intercambistas. Nós tínhamos aulas de inglês em separado, porque a gente tinha um nível mais baixo que os demais alunos. Nos deram muito apoio. Outra coisa que me chamou a atenção é o cuidado com as pessoas que têm deficiência”, avalia.

A estudante da Escola Estadual Joaquim Alves de Freitas se prepara para buscar uma vaga em alguma faculdade, nos cursos de Administração de Empresas ou Economia. Da viagem, fica a experiência inesquecível e a certeza de que os meses que passou em Saint Mary serão importantes para as outras etapas da vida. “Achei muito bom porque você vai, conhece outra cultura, aprende a respeitar o diferente. A questão de aprender uma segunda língua também é muito importante, porque sei que é algo que vai valer para a minha vida profissional”, afirma.

Renata Negreiros Penedo também tem 17 anos e estuda na Escola de Referência em Ensino Médio Porto Digital, no Recife. O intercâmbio dela aconteceu no segundo semestre do ano passado, no Uruguai. Um país bem diferente do que foi visitado por Luzia, inclusive no idioma, mas que também tem se destacado por atender bem aos estudantes do Programa Ganhe o Mundo.

“A experiência foi maravilhosa. O pessoal é muito receptivo com os brasileiros, foram muito pacientes quando a gente ainda não entendia muito bem a língua. O sistema educacional funciona muito bem. A escola dava muito apoio pra gente se adaptar em relação aos horários e para ajustar a grade curricular, que é diferente da nossa”, explica.

A aluna do 3º ano passou cinco meses na cidade de Durazno, próxima à capital Montevidéu, e também se mostrou entusiasmada com as experiências que viveu ao morar em um outro país. Ela disse não ter tido problemas com as diferenças culturais e ainda se mostrou impressionada com o nível baixo de violência, bem diferente da de uma metrópole brasileira como o Recife.

“O Uruguai é um país muito organizado. A legalização do aborto lá é válida, das drogas também, mas você não vê nada disso, ninguém nem conversa sobre isso. A violência lá é zero. O prefeito nos deu todo apoio. Conheceu a gente e perguntou se a gente precisava de algo. Foi muito legal”, assinala.

Host family faz Larissa retornar
Larissa Marques foi uma das alunas escolhidas para fazer o intercâmbio do Programa Ganhe o Mundo no primeiro semestre do ano passado. Durante cinco me­­ses, entre janeiro e junho, ela estudou na Saint Paul Preparatory School, em Rosemount, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos, e passou pela experiência que os alunos intercambistas do PGM têm a chance de viver ao se relacionar com um país, uma cultura e um idioma diferentes. Mas a grande virada na vida de Larissa começou a acontecer justamente quando ela já estava de volta a Olinda, onde morava no Brasil.

A host family, a família que recebeu a pernambucana em Rosemount, gostou tanto de Larissa que a convidou para fazer a faculdade nos Estados Unidos. “Durante o intercâmbio, eles haviam me falado sobre o TOEFL, que é a prova de inglês que você precisa passar para mostrar que pode fazer um curso nos EUA. Em dezembro de 2015, eu pedi aos meus pais, como presente de Natal, para passar o final de ano com a minha host family.

Nessa época, eles falaram mais sobre eu fazer a faculdade aqui. Eles pagaram a minha prova do TOEFL e a marcaram para março de 2016. Eu voltei para o Brasil e comecei a estudar. Fiz a prova e vi que tinha passado para a faculdade que eu queria. Aí acabei voltando pra cá em junho deste ano”, conta a ex-aluna da EREM Professor Arnaldo Carneiro Leão, em Maranguape I, Paulista.

Hoje, Larissa já está nas aulas do curso de Engenharia na Enverhills Community College, que tem dois anos de duração, mas já pensa em seguir vivendo nos Estados Unidos. “Eu vou buscar uma bolsa de estudos para tentar me transferir para uma universidade de quatro anos. Faço Engenharia, mas estou pensando em adicionar um segundo curso, que é Negócios Internacionais. Eu estou trabalhando como voluntária na empresa do meu pai daqui, que é um centro de aprendizado em Matemática. Quando eu me formar, se eu conseguir o certificado para trabalhar nessa empresa e depois conseguir montar minha própria empresa, seria bem legal. Eu gostaria de continuar trabalhando aqui”, fala, com segurança.

Ela diz sentir saudades dos pais no Brasil, mas garante que se tratam dos maiores incentivadores das “loucuras” dela. O único problema é que dificilmente Larissa receberá a visita deles em Minnesota. “Meu pai tem medo de avião. Acredito que eles não vêm me visitar. É mais fácil eu ir para o Brasil. Sinto muito a falta deles. Sei que é difícil pra eles, pois sou filha única. Mas eles me apoiaram em tudo”, comenta.

Sem a convivência da família de sangue, Larissa recebe o apoio e o carinho dos Kahar, uma família de Bangladesh que está radicada há vários anos nos Estados Unidos. Os pais são o casal Bari e Irina, que têm três filhos: Aver, de 10 anos, Reevu, de 8 e Ray, de 6, que está na foto do perfil do Whatsapp de Larissa. “Eles são como meus pais, são meus irmãos. O que é mais legal é que eu aprendo a cultura americana e a de Bangladesh. Eu pensava que ia passar os cinco meses, ia voltar e fazer faculdade no Brasil. Quando eles disseram para eu fazer a prova do TOEFL, foi uma surpresa. Nem fiz o Enem”, revela.

Programa trabalha com oito países
O Programa Ganhe o Mundo trabalha atualmente com oito países, sendo quatro de língua inglesa e quatro de língua espanhola. A cada ano, cresce a cooperação dos órgãos de imigração desses países, para facilitar a emissão dos vistos e a busca para encontrar famílias e escolas que possam acolher os estudantes pernambucanos.

O Canadá é o país que mais recebe os estudantes do PGM. “É um país que desde o início do programa a embaixada se envolveu bastante. O Canadá é um país muito receptivo a estrangeiros, tem uma boa estrutura para receber alunos de fora em suas escolas e famílias”, diz a superintendente do PGM, Renata Serpa. Até hoje, dos 5.083 estudantes da rede estadual que fizeram intercâmbio no exterior através do PGM, 2.796 foram para o Canadá, ou seja, quase 60% do total.

Há um bom contingente de alunos que são enviados para a Oceania, uma experiência no outro lado do mapa mundi. O segundo país que mais recebe os estudantes pernambucanos é a Nova Zelândia. Somados com os que vão para a vizinha Austrália, o número de pernambucanos do PGM no continente ultrapassa de mil. “Apesar de ser um pouco mais caro que o Canadá, eu consigo alocar 200 alunos na Nova Zelândia. A Austrália é um país caro. A gente até tinha deixado de enviar alunos para lá, mas o próprio Governo da Austrália nos procurou e nós voltamos a enviar, porque, apesar de ser mais caro, a experiência de lá é muito interessante”, diz Renata Serpa.

Os Estados Unidos foi outro país que o PGM enfrentou algumas dificuldades, mas, após a intervenção do governo norte-americano, a relação foi fortalecida. “O processo de visto era muito complicado. Hoje em dia nós temos o total apoio da Embaixada. Para se ter uma ideia, o Consulado reserva um dia de agendamento só para atender ao PGM”, explica a superintendente.

A procura por países de língua espanhola é bem menor que os de língua inglesa, que chegam a pouco mais de 80% dos casos. Ainda assim, as experiências na Argentina, Chile, Uruguai e Espanha têm sido aprovadas pelos intercambistas. “Argentina e Chile têm um quantitativo bem equilibrado, cerca de 70 alunos por semestre. O Uruguai tivemos um primeiro envio no ano passado e foi uma grata surpresa. Eles receberam muito bem. Agora em fevereiro estamos mandando um novo grupo para lá. A Espanha tem a questão do euro, que é muito caro. A gente manda um número quase que simbólico”, afirma.

Renata se encantou com a organização e a tranquilidade de Durazno, no Uruguai
Renata se encantou com a organização e a tranquilidade de Durazno, no UruguaiFoto: Cortesia
Larissa foi convidada pela família que a recebeu no PGM para voltar para Minnesota
Larissa foi convidada pela família que a recebeu no PGM para voltar para MinnesotaFoto: Cortesia

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