Gilda deixou-se levar e disse 'sim' no altar...
Gilda deixou-se levar e disse 'sim' no altar...Foto: Reprodução/Internet

 

Gilda via aquela igreja lotada e lembrava-se dos tempos de infância, quando moravam no sítio. Ela e sua família. Viviam do que plantavam. Criavam porcos, galinhas, ovelhas e faziam queijo. E era do queijo que vinha a renda maior para sustentar ela e os seis irmãos. Ao olhar para Jeremias, seu irmão mais velho, lembrou-se do dia em que caiu na cacimba do sítio e, por sorte, ele viu de longe e foi em seu socorro. Foi resgatada com um balde de madeira.

Viu sua vozinha Severina. Doce como sempre, sorrindo-lhe um sorriso de felicidade. O aceno com a cabeça foi como se disse que se sentia orgulhosa ao ver a neta a caminho do altar. Os olhos de Gilda marejaram. Não conseguia ser a durona casca grossa quando olhara para a avó. Um manjar de pessoa. Nem parecia ser mãe do seu pai, um homem durão, bom homem, mas rigoroso com os filhos. Talvez pela dureza da vida. Teve que trabalhar mais cedo quando o pai dele morreu e ajudou a mãe a criar os outros onze irmãos menores. Seu Adamastor não cabia em si de felicidade ao levar a filha para uma nova vida.

A doida da Gabriela acenava lá na ponta esquerda dos bancos. Eita quanta coisa tinham vivido juntas. Gilda recordou-se do dia em que tiraram o calção de José, o garoto mais bobo e mais bonitinho da turma. Morava no sítio vizinho. Eram adolescentes, uns doze ou treze anos. Nunca mais tinham tido notícia de José depois que o pai dele perdeu o sítio para o banco e foram embora para São Paulo. Teria casado com José. ‘Como estaria ele agora?’, pensava Gilda. Estavam chegando ao altar.

Gilda despertou quando seu Adamastor falou aquela frase previsível de qualquer pai tradicional: ‘Cuide bem da minha filha’. O noivo estava um júbilo de felicidade. Também em um lampejo de memória lembrou-se de quando o tinha conhecido. Na verdade, foi ele quem a viu primeiro, conversando com umas amigas do colégio, na época em que Gilda morava na casa de uma tia na cidade. Tia Davininha (que Deus a tenha). Sérgio fez de tudo para namorá-la. Filho de um empresário, ele enfrentou o preconceito da família para casar com Gilda. E ela deixou-se levar.

Gilda disse sim naquele altar.

E estava ali, sentada no primeiro banco da igreja, lembrando-se de tudo o que pensou no dia em que se casou com Sérgio. Já fazia dois anos. Respirou fundo, saiu dali e foi ter com o advogado. Dar entrada no divórcio.

 

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