Em um beco estreito, rebocado no cimento, encontramos uma senhora sentada, de pé pra cima. Ela fita desconfiada. Escolhe ser chamada de Maria José, como sua mãe. É ex-doméstica, mãe, avó e bisavó, que se recupera de mais uma cirurgia que lhe levou todos os dedos do pé. - Quantos anos a senhora tem? “Eu nem sei. Setenta, né?”, consulta uma filha. São 76, na verdade. Ouve a explicação sobre a matéria e balança a cabeça, aceitando conversar. Diz que nasceu em Sirinhaém, interior de Pernambuco, e se mudou para o Recife para trabalhar. Narra sem detalhes. Hoje, da cama para a cadeira, da cadeira para a cama, os dias são todos iguais. “Eu queria era ficar boa para voltar a fazer minhas coisas. Lavar prato, varrer a casa...”, diz, e chora.

A diabetes levou os dedos de Maria José; dos 10 filhos que teve, uma morreu de sarampo, outro assassinado em uma das unidades do sistema prisional de Pernambuco. É a segunda visita do Ceav àquela casa. A psicóloga Julia pergunta pelo atendimento do Centro de Referência de Assistência de Social (Cras, um dos parceiros do Ceav). “Não veio ninguém”, responde Maria José. Do posto de saúde vizinho, também nada chegou. “Preciso de gaze e soro e nem isso eles têm”, comenta uma filha. - E fica por isso mesmo? “Fica, eles não dizem nada. A gente vive de ajuda”, diz. No fim, a assistência chegou através da Secretaria de Saúde do Estado.

O filho morto, Carlos, foi preso por porte de armas e ficou mais de cinco anos na cadeia, cumprindo também pena por estupro. A irmã conta que a família se uniu, pagou advogado e o pôs na rua de novo, mas ele voltou a “cair”, pêgo andando com arma branca. Voltou e morreu lá mesmo, e só não foi enterrado como indigente porque, pouco antes do assassinato, haviam tirado as segundas vias dos documentos. No atestado de óbito, a causa da morte saiu como choque, mas a família diz que havia perfurações de balas no corpo.

Volto minha atenção àquela senhora triste, que ri quando fala da gafieira onde conheceu o marido. - Quando essa moça diz que a senhora tem direito, a senhora entende o que?, pergunto. “Que eles tinham que me atender”, responde baixinho. - E o que é que a senhora acha do tratamento que recebe? “É difícil”. Maria José não esbraveja, xinga ou deseja vingança a quem matou seu filho. Pergunto pelo que ela ainda hoje chora; ela se emociona. “Eu não pude nem ir para o enterro porque eu estava com o pé desse jeito”. A família fez uma foto do rapaz no velório e foi assim que a mãe se despediu. A senhora queria poder mudar alguma coisa? “O que eu queria mudar, acabou, né? Mas eu rezo por ele toda a noite”.

Em um beco estreito, rebocado no cimento, encontramos uma senhora sentada.

Foto: Em um beco estreito, rebocado no cimento, encontramos uma senhora sentada.
Créditos: Peu Ricardo/Arquivo Folha

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