Aguiar perdeu o irmão durante a Ditadura e trata as sequelas da sua alma
Aguiar perdeu o irmão durante a Ditadura e trata as sequelas da sua almaFoto: Peu Ricardo/Arquivo Folha

“Tive problemas sérios, me tratei por mais de 10 anos e, só agora, aqui, é que consegui fazer uma psicoterapia séria e estou me considerando resolvido”

Hoje, no terceiro dia da série Sem Reparação, a Folha conversa com o primeiro gestor do Centro de Atendimento à Vítima de Violência (Ceav), Paulo Moraes, responsável pela implantação do atual modelo. Conta também um exemplo de política de reparação que deu certo: a Clínica do Testemunho, que assiste a anistiados e familiares de pessoas que sofreram alguma sanção de direitos durante a Ditadura Militar. Na história de Danúbio Aguiar, e na sua voz, vemos, afinal, uma reparação que tem começo, meio e fim. É um trabalho-irmão do Ceav, cuja ação está na história de Maria Isis, vítima indireta atendida pelo serviço. Amanhã, o último dia, a série traz entrevista com o secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, Pedro Eurico, a quem os programas são subordinados. Textos de Tatiana Notaro. Fotografia, Peu Ricardo.

Para contar sua história, Danúbio Aguiar não precisa de disfarces. Senta-se à mesa, em uma sala na Secretaria Executiva de Justiça e Direitos Humanos, onde funciona o Ceav, e desanda a partilhar memórias. Simpático e instruído, ele tem as mãos ainda levemente trêmulas: são sequelas da Ditadura, regime que torturou tanta gente e matou seu irmão, Ivan Aguiar. Era um jovem de 23 anos, presidente da Associação de Estudantes de Palmares, que veio ao Recife para estudar engenharia. Foi o primeiro assassinado no primeiro dia do Golpe. Levou tiros de metralhadoras em praça pública, na avenida Guararapes, Centro do Recife.

Seu Danúbio é atendido pela Clínica do Testemunho, política de reparação do Governo do Estado, voltada a anistiados e outras vítimas da Ditadura. Bom ouvi-lo porque atesta que uma política pública, de fato, dá resultado. Quando chegou à Clínica, tinha tremores, ideias fixas, mania de perseguição. “Essa clínica é muito importante. Eu senti as sequelas do que aconteceu muito tempo depois. Tive problemas sérios, me tratei por mais de 10 anos e, só agora, aqui, é que consegui fazer uma psicoterapia séria e estou me considerando resolvido”, conta. Agora, ele quer indicar o serviço à irmã.

Uma passeata de estudantes seguia pela rua. “Estávamos eu, Hector Labanca, Sergio Guerra... E eu lembro que Labanca estava em cima da marquise do cinema São Luiz”. Seguiu pela avenida Conde da Boa Vista e, perto dali, o estudante Danúbio encontrou o irmão. “Eu disse: ‘Ivan, vem aqui mais atrás, porque tá’ a polícia e o Exército aí. A coisa não é pra brincadeira’. Quando eles chegaram ao edifício JK, foram metralhados. Começaram a atirar para a passeata não chegar ao palácio do Governo. Não era festim, porque começou a cair o reboco do prédio. Depois, uns amigos comunicaram que Ivan tinha sido ferido. Quando eu cheguei ao pronto socorro com a minha mãe, na praça Oswaldo Cruz, ele estava morto”.

Até hoje, não se sabe quem atirou nos estudantes. Ainda assim, seu Danúbio não desapegou das ideologias que cultivava naquele tempo. Conta que ainda é filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) - o mesmo a que seu pai se manteve fiel até que se foi, aos 94 anos - e que não tem nenhuma razão para querer revanche. “Existe militar que vive batendo no peito dizendo que atirou em estudante”, diz. “Naquela época, estávamos em alerta porque havia a presunção de golpe. Como acontece agora, com Dilma. Não se iludam que as coisas não mudaram. Essa corja de perdedores nunca se conforma”.

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