Toda política de Estado tem que ser totalizante. Qualquer coisa diferente já começou superficial
Toda política de Estado tem que ser totalizante. Qualquer coisa diferente já começou superficialFoto: Peu Ricardo/Arquivo Folha

“Toda política de Estado tem que ser totalizante. Qualquer coisa diferente já começou superficial”

A Folha de Pernambuco fecha hoje a série Sem Reparação, que contou o trabalho do Centro de Atendimento à Vítima de Violência (Ceav) e da Clínica do Testemunho, serviços da política de reparação do Governo do Estado de Pernambuco. Essa política, um dos pilares dos Direitos Humanos, é uma assunção de culpa por parte do ente público, que busca recompensar suas falhas. Na fala da especialista, a ação é caridade; para o gestor público, que pouco sabia sobre a ação vinculada à sua secretaria, assistência necessária de um Estado que não pode desamparar. Na verdade, são as pessoas à frente desses serviços os principais, senão únicos, agentes de reparação. Embora haja esperança na preservação e reconstrução de direitos, existe a frustração pelo trabalho que emperra nas deficiências de um Estado que deveria amparar, mas vitima. Textos de Tatiana Notaro. Fotografia, Peu Ricardo.


Os olhos azuis de Cora (*) são encantadores. Branca, loira e estrangeira, ela está fora do estereótipo das vítimas indiretas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) atendidas pelo Ceav. Tem renda, estuda em boa escola, pensa no futuro e fala três idiomas. Em uma conversa breve, é alegre, menina no início da adolescência que se diz “mais madura que as amigas”. Mas no caminhar da entrevista, divagando sobre perdas e ganhos, chora. Órfã de pai e mãe, Cora vive com os padrinhos já idosos, sem filhos, que têm sua guarda provisória e a tratam com muitos cuidados. “Ela não sai sozinha”, enfatiza a madrinha, Raquel, 60 anos.

A mãe de Cora foi moradora de rua até conhecer o turista estrangeiro que concretizou para ela o sonho-clichê de uma vida nova em outro país. Sarah morou fora por mais de uma década, teve Cora, ficou viúva e voltou para o Brasil com uma conta bancária volumosa, mas com o mesmo roteiro do passado. Voltou para a falta de limites. Contam que ela tinha más companhias, que bebia, usava drogas e sumia por dias, deixando a menina sob os cuidados de Raquel. Um dia, sumiu de novo. Foi encontrada morta em casa. Cora resiste, quer deixar claro que sente poucas saudades de Sa­rah. A madrinha parece induzir que a menina transmita normalidade. A conversa acontece no terraço da ca­sa de classe média, com lanche, co­mo uma conversa de velhos amigos, mas tem um ar de prestação de contas. Raquel detalha em valores que as despesas da menina são pagas, em partes, pelos aluguéis nos imóveis que a falecida mãe deixou. São três, dois alugados e ou­tro à espera de um inquilino que não se importe em morar na cena do crime.

O Ceav quer encaminhar Cora para a psicoterapia. “Acho que não preciso, tô bem em relação à morte da minha mãe. Já superei”, dispara. Ela tem respostas rápidas, conta que tem a mente ocupada com estudos e nunca pensa “naquela história”. “Sarah simplesmente está no céu, viajou. Tanto eu quanto Cora só lembramos quando as pessoas falam”, arremata Raquel. A conversa segue. A madrinha tagarela todo tipo de assunto, sempre buscando a afirmativa da afilhada: “não é, meu amor?”. “Já estamos planejando a viagem de aniversário de 15 anos dela. Para onde é, Cora?”. “Para Paris!”, diz a menina, sorrindo.

Raquel sai para coar um café e a conversa aprofunda. Faz uma hora que começou, e só ali Cora confessa sentir falta da mãe. Enxuga com as mãos as lágrimas que descem sem esforço. Tem unhas pintadas de azul e algumas pulseiras. “Minha mãe, apesar de tudo, era muito minha amiga. Ela sabia de tudo sobre mim”, soluça. A psicóloga Julia quer aproveitar a chance. “Há outros momentos que você consegue chorar por isso?”. “Não. Eu acho que só pelo fato de não ter minha mãe como minha amiga aqui. Só. Raramente que eu choro por isso, e quando eu choro, é à noite, escondida. Tenho vergonha”. Pergunto se ela quer ser mãe. “Quero, e quero que meu filho seja uma criança normal. Que tenha um pai, uma família normal. Eu acho que uma das piores coisas que tem é não ter uma família. Mas pra mim, tudo bem. É o que eu tenho, tenho que aceitar”. Cora continua morando com os padrinhos que, apesar das orientações da equipe técnica do Ceav, mantêm a decisão de deixar a menina fora da psicoterapia. Recentemente, Raquel interrompeu o trabalho do Ceav e não permite mais visitas da equipe à menina.

(*)nome fictício, escolhido pela personagem

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