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Fernanda Torres: professoras e colegas relembram passagem da atriz pelo Teatro Tablado, aos 13 anos

Louise Cardoso, Sura Berditchevsky e Eduardo Martini lembram que atriz hoje indicada ao Oscar já impressionava pela capacidade de improviso e a inteligência cênica

Fernanda Torres no Globo de Ouro 2025Fernanda Torres no Globo de Ouro 2025 - Foto: Robyn Beck / AFP

Em 1978, Chico Buarque cantava “Apesar de você” para um país que ainda vivia sufocado por uma ditadura militar. A discoteca era a onda do momento, impulsionando o sucesso da novela “Dancin’ days”, estrelada por Sônia Braga.

Nas ruas, a grande pergunta era: “Quem matou Salomão Hayala?”. E Fernanda Torres — uma menina de 13 anos, longilínea e de olhos grandes — estava ali, em frente a Louise Cardoso, sua professora no Tablado, uma das mais respeitadas escolas de teatro do Rio de Janeiro e do país.

Sua expressão corporal — os lábios cerrados, as mãos entrelaçadas, a cintura em movimento — não deixava dúvidas. Ela precisava muito sair do ensaio para ir ao banheiro. Para isso, como manda a etiqueta nessas situações, pediu licença à mestra. Mas a resposta — sim, claro, ela poderia ir — foi dada com tanta veemência que pareceu uma bronca.

— Não foi exatamente uma bronca — corrige Louise. — Mas eu realmente falei com bastante firmeza, dizendo que ela era livre, que podia fazer o que quisesse, nem lembro mais o porquê, como se fosse um absurdo ela perguntar aquilo. Talvez fosse pela minha própria insegurança, já que era muito nova, tinha uns 20 e poucos anos. Era muito exigente, principalmente com ela, que já demonstrava ser muito rápida no improviso. E como todos ali, a gente queria fazer sempre o melhor, todo mundo junto. Esse era o espírito — conta.

Não era por menos. Criado por Maria Clara Machado e um grupo de amigos em 1951, o Tablado ganhou visibilidade um pouco depois, com a primeira montagem da peça infantil “Pluft, O Fantasminha”, escrita pela própria Maria Clara. Com o tempo, o espaço do Jardim Botânico foi se firmando como uma referência no ensino calcado no improviso, em aulas dadas pela fundadora e, depois, pelos próprios alunos que ela ajudara a formar.

— Eu era de uma turma mais adiantada e um dia a Maria Clara ficou doente, acho que foi hepatite — conta Louise. — E aí ela virou para mim e falou, “Louise, você vai dar aula”. Fiquei sem ação, “como assim, dar aula?”, mas a Maria Clara disse que eu era criativa, tinha liderança e ia ficar tudo bem. E realmente ficou, tanto que, quando ela voltou, passou a se dedicar aos adultos e nós ficamos com as turmas dos mais novos, que iam chegando a toda hora — lembra Louise.

Fernanda Torres foi dessa turma. Diferentemente de outros alunos que entravam na escola para perder a timidez ou tratavam aquilo como um hobby, ela já sabia que queria ser atriz, inspirada naturalmente pelos pais, Fernanda Montenegro e Fernando Torres.

— Mas ela não chegou no Tablado num vestido de princesa por causa dessa descendência nobre — lembra o ator Eduardo Martini, companheiro de turma. — A Fernanda, que era divertidíssima nos ensaios e no dia a dia, sempre foi discreta em relação aos pais, sempre se manteve tranquila e serena, jamais passou afetação ou estrelismo.

Ex-aluna do Tablado também transformada em professora (de Fernanda), a atriz Sura Berditchevsky lembra de um episódio que simboliza essa discrição também por parte dos pais da indicada ao Oscar.

— Era a peça “Um tango argentino”, escrita pela Maria Clara, comigo na direção. Era a primeira peça da Fernanda Torres. E a Fernanda Montenegro e o Fernando Torres não podiam ir à estreia porque estavam em cartaz com outra peça, se não me engano, no teatro Maison de France. Então, no dia do ensaio geral, com os figurinos e tudo mais, eles apareceram, me chamaram num canto e pediram para assistir tudo, escondidos no balcão, sem que a filha soubesse. E lá ficaram, até o fim do ensaio.

O casal de atores era mais ativo no acolhimento — e às vezes na defesa — da nova geração da qual a filha fazia parte.

— Eu morava longe do Jardim Botânico, não tinha muita grana, trabalhava meio expediente e fazia o Tablado à tarde — lembra a atriz Catarina Abdalla. — E quem me acolheu, assim como muitos outros alunos da nossa turma, foi a família da Fernanda. Dormi muitas vezes na casa dela. As festas lá também eram ótimas.

— Lembro que fizemos uma peça chamada “Dependência de empregada”, que foi censurada meia hora antes de começar, com as pessoas já na porta para entrar. Foi devastador — conta Sura. — Daí no dia seguinte, o Fernando levou a gente na Censura para tentar nos defender. Acabamos retomando a peça, com cortes. Ele tinha um comprometimento muito grande com a arte. Foi esse o ambiente em que a Fernanda cresceu, o que explica muita coisa sobre ela.

Papel de mãe
Em “Um tango argentino”, Martini fazia o papel de um professor de tango, chamado Gardênio Carlos, e Fernanda fazia o papel de sua... mãe.

— Era o papel de uma pessoa mais velha e ela tirava de letra — conta Sura. — A Fernanda tinha poucas aparições, mas era protagonista de uma grande cena no final. Quando ela aparecia, era aquele impacto. Ela vinha dançando tango e falando espanhol, completamente presente. Lembro que todo mundo ficava impressionado porque ela era muito novinha e já tinha uma inteligência cênica muito grande.

Menos de dois anos depois de ingressar no Tablado, Fernanda bateu asas e voou para a televisão, o cinema, a literatura etc. Os encontros com os ex-colegas de escola ficaram, naturalmente, mais escassos. Mas as boas memórias — ou pelo menos, algumas delas — seguem vivas.

— Adoro os livros da Fernanda e lembro que fui na noite de lançamento de “Fim” — conta Louise. — Quando saí da fila com meu exemplar e fui ver o que ela tinha escrito no autógrafo, estava lá: “Posso fazer xixi?

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