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Música

Gilberto Gil conta como fez "Cálice" com Chico Buarque

Em publicação no X (antigo Twitter), baiano escreveu sobre a canção na qual os dois desafiavam a Censura: "Nós fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la."

Gilberto Gil e Chico Buarque, no festival 'Lula Livre', no Rio de Janeiro, em 2018. Gilberto Gil e Chico Buarque, no festival 'Lula Livre', no Rio de Janeiro, em 2018.  - Foto: AFP/Mauro Pimentel

Em meio a sua última turnê, a retrospectiva "Tempo Rei", que estreou em Salvador no sábado passado, Gilberto Gil aproveitou esta sexta-feira o X (antigo Twitter) para contar detalhadamente como compôs, junto com Chico Buarque, em 1973, um de seus maiores sucessos (e uma das músicas mais perseguidas pelas ditadura militar), "Cálice":

A Polygram queria fazer um grande evento com todos os seus artistas no formato de encontros (o Phono 73), e foi dada a mim e ao Chico a tarefa de compor e cantar uma música em dupla.

"Era semana santa e nós marcamos um encontro no sábado no apartamento dele, na Rodrigo de Freitas (a lagoa referida, aliás, por ele na letra). Eu pensei em levar alguma proposta e, um dia antes, no fim da tarde, me sentei no tatame, onde eu dormia na época, e me pus a esvaziar os pensamentos circulantes para me concentrar.

Como era sexta-feira da Paixão, a ideia do calvário e do cálice de Cristo me seduziu, e eu compus o refrão incorporando o pedido de Jesus no momento da agonia. 

Em seguida escrevi a primeira estrofe, que eu comecei me lembrando de uma bebida amarga chamada Fernet, italiana, de que o Chico gostava e que ele me oferecia sempre que eu ia a sua casa.

No sábado não foi diferente: ele me trouxe um pouco da bebida, e eu já lhe mostrei o que tinha feito.

Quando, cantando o refrão, eu cheguei ao ‘cálice’, no ato ele percebeu a ambiguidade que a palavra, cantada, adquiria, e a associou com ‘cale-se’, introduzindo na canção o sentido da censura.

Depois, como eu tinha trazido só o refrão melodizado, trabalhamos na musicalização da estrofe a partir de ideias que ele apresentou. E combinamos um novo encontro.

Ele acabou fazendo outras duas estrofes e eu mais uma, quatro no total, todas em oito decassílabos.

Dois ou três dias depois nos revimos e definimos a sequência.

Eu achei que devíamos intercalar nossas estrofes, porque elas não apresentavam um encadeamento linear entre si.

Ele concordou, e a ordem ficou esta: a primeira, minha, a segunda, dele; a terceira, minha, e a última, dele.

Na terceira, o quarto verso e os dois finais já foram influenciados pela ideia do Chico de usar o tema do silêncio.

O termo, aliás, já aparecia na outra estrofe minha, anterior: ‘silêncio na cidade não se escuta’, quer dizer: no barulho da cidade, não é possível escutar o silêncio; quer dizer: não adianta querer silêncio porque não há silêncio, ou seja: não há censura, a censura é uma quimera; além do mais, ‘mesmo calada a boca, resta o peito’ e ‘mesmo calado o peito, resta a cuca’: se cortam uma coisa, aparece outra.

Aí, no dia em que nós fomos apresentar a música no show, desligaram o microfone logo depois de termos começado a cantá-la.

Tenho a impressão de que ela tinha sido apresentada à censura, tendo-nos sido recomendado que não a cantássemos, mas nós fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la."

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