Imagem da obra "Revela-te, Chico - Uma fotobigrafia"
Imagem da obra "Revela-te, Chico - Uma fotobigrafia"Foto: Daryan Dornelles

No dia em que o STF decidiu pela não liberação imediata do ex-presidente Lula, um grupo de mais de 30 artistas brasileiros e franceses liderado pelo compositor Chico Buarque leu, em um teatro de Paris, cerca de 60 cartas enviadas ao líder na prisão.

A apresentação, que durou mais de duas horas e meia, lotou um espaço com 450 assentos. Muitos espectadores usavam camisetas com a inscrição "Lula livre". Havia também na plateia faixas com a mesma expressão.

Participaram da leitura atrizes como a francesa Anna Mouglalis e a portuguesa radicada na França Maria de Medeiros, além do ex-deputado federal Jean Wyllys, que deixou o Brasil depois de receber ameaças, e a escritora Marcia Tiburi, que passa temporada em Paris após também ser alvo de mensagens de intimidação.

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Na cena do teatro Monfort, os fragmentos lidos condensavam quase duas décadas da história política brasileira contemporânea. As missivas, algumas com tom de quase devoção a Lula, faziam referência direta ou indireta a iniciativas que marcaram os governos do PT, como Fome Zero, Bolsa Família, ProUni, PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Mais Médicos e Ciência sem Fronteiras.

Seu teor misturava palavras de incentivo ("resista"), agradecimentos ao ex-presidente e até pedidos de casamento (ao menos um incrementado por uma foto da missivista) ou descrições de jogos (e de gols) do Corinthians, time para o qual ele torce. Houve também quem dissesse esperar a libertação do petista para "tomar uma cervejinha" ou lhe preparar uma caipirinha.

O registro era quase sempre informal, e os remetentes não raro teciam paralelos entre suas histórias de vida e a de Lula, sublinhando que só alguém com a trajetória dele poderia entender em profundidade as privações e agruras dos pobres.

Na plateia, várias pessoas choravam ao ouvir a correspondência de tom mais pessoal –no palco, Wyllys foi várias vezes às lágrimas. Por vídeo, fizeram aparições as atrizes Marieta Severo, Renata Sorrah, Camila Pitanga (com o pai, Antonio) e Grace Passô (ao lado do encenador Marcio Abreu).

Chico leu uma carta em que se falava de fome e superação da miséria. Em entrevista publicada na semana passada pelo jornal francês Le Monde, o músico disse ter reservas ao PT por causa dos episódios de corrupção em que a sigla se envolveu –mas ponderou que o partido foi estigmatizado depois da eleição de 2014 por uma direita ressentida com a própria derrota.

A necessidade de a esquerda realizar uma autocrítica, que parte de seus simpatizantes vê como incontornável, apareceu em duas ou três das cartas lidas.

Outros temas recorrentes das missivas eram o assombro dos escribas com a eleição de Jair Bolsonaro e a revolta com o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (a certa altura, a plateia respondeu "presente!" três vezes seguidas a menções a ela), em março de 2018.

Na porção final, o samba-enredo da Mangueira em 2019, que cita Marielle e fala da urgência de revisitar a história brasileira sob ângulos que não o oficial, ganhou letra e interpretação em francês.

Concebido pela historiadora francesa Maud Chirio (especialista na direita do Brasil) e dirigido por Thomas Quillardet (que já montou textos de Nelson Rodrigues), o espetáculo se encerrou com coros de "Lula guerreiro do povo brasileiro", "Lula livre" e "olê, olê, olê, olá, Lula, Lula" (este, jingle da campanha de 1989).

Uma parte da plateia tentou puxar o samba "Vai Passar", de autoria de Chico, mas o coro não "pegou".

Na saída, o compositor não quis falar com a reportagem. Limitou-se a dizer: "Deixa eu correr lá para ver o que está acontecendo [no julgamento de habeas corpus de Lula pelo STF]".

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