Joaquim Phoenix entrega Coringa ainda mais humano e assustador
Joaquim Phoenix entrega Coringa ainda mais humano e assustadorFoto: Divulgação

Não é estranho que, no ano em que o Batman completa oito décadas de existência, todos os holofotes estejam voltados para o arqui-inimigo do homem-morcego. Afinal de contas, o Coringa sempre conseguiu despertar reações extremadas do público, seja de medo ou de admiração. Todo esse alarde se repete com o lançamento do filme sobre o palhaço criminoso. O longa-metragem chega aos cinemas brasileiros amanhã, com uma estrondosa repercussão que antecede sua estreia, seja pelos elogios derramados à atuação de Joaquim Phoenix (possível postulante ao Oscar) no papel-título ou pela crítica de que a obra pode incentivar comportamentos violentos.

Dirigido por Todd Phillips, "Coringa" é muito mais do que um filme de super-herói. Deixando de lado as características atribuídas ao gênero, a proposta é utilizar o rico universo criado nas HQs como ponto de partida para um drama realista, que explora todas as nuances do vilão. Esse perfil fez com que o longa levasse para casa o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza, no início de setembro.

Mas o reconhecimento não tornou a obra imune à problematização. Há uma preocupação de que o personagem sirva de inspiração, especialmente para os chamados "celibatários involuntários", homens que costumam propagar discurso de ódio contra minorias políticas na internet. Por conta disso, nos Estados Unidos, o FBI chegou a alertar o exército sobre possíveis ataques violentos durante sessões do filme.

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Parafraseando a justificativa da cineasta argentina Lucrécia Martel, presidente do júri de Veneza, "Coringa" é um "poderoso retrato do nosso tempo". E é por espelhar algo tão latente que ele não deve ser ignorado. Embora estejam presentes algumas referências à "A piada mortal" (1988), graphic novel de Alan Moore, o roteiro reinventa a origem do espalhafatoso bandido. O filme é ambientado em uma Gothan City assolada por problemas sociais, entre o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Neste cenário desolador, vive o perturbado Arthur Fleck, um palhaço fracassado, que vive com a mãe e sonha fazer sucesso no stand-up.



Como qualquer boa obra de arte, o filme não propõe respostas fáceis, mas sim reflexões. Os distúrbios mentais que Fleck carrega vão sendo agravados pouco a pouco, diante dos reveses profissionais e pessoais, do bullyng sofrido em diferentes ambientes e do descaso do poder público, que se nega a providenciar um tratamento adequado. A resposta a tudo isso se dá da maneira mais violenta possível. O temor de que esse homem enlouquecido, que se vinga dos ricos, se torne uma inspiração para alguns também está presente na história, já que o palhaço assassino acaba virando um herói para parte da população de Gothan. É uma mostra de como a sociedade cria psicopatas e, depois, não consegue lidar com eles.

"Coringa", talvez, não teria o mesmo êxito se não fosse o brilhantismo do protagonista. Mais do que emagrecer vários quilos para viver o personagem, o ator sabe trabalhar a fisicalidade à serviço do papel. E a direção sabe explorar muito bem isso, chamando atenção para cada gesto e expressão do artista. É interessante notar como o intérprete trabalha a risada, com diferentes entonações, para reforçar o estado psicológico de seu personagem. Assim como Jack Nicholson e Heath Ledger, em filmes anteriores, Phoenix entrega um Coringa marcante, mas com importantes diferenciais, mais humano e ensandecido do que nunca.

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