Wellington de Melo, editor da Cepe, diz que livro é um trabalho coletivo
Wellington de Melo, editor da Cepe, diz que livro é um trabalho coletivoFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Plantar uma árvore, ter um filho, escrever um livro. A máxima batida que representa uma garantia de eternidade volta à baila num momento em que, como descreve o premiado escritor Sidney Rocha, "nunca foi tão fácil e tão difícil escrever". "As pessoas acham que ter acesso à informação é o mesmo que ter acesso ao conhecimento, quando são coisas distintas e, às vezes, até antagônicas", critica.

Enquanto muita gente decreta a iminente "morte" do livro impresso, outras tantas embarcam na vontade de registrar suas opiniões de uma forma mais perene - alcançando, com isso, algum tipo de status e satisfação do ego. Grande parte, porém, não entende esse processo de construção e se frustra com os resultados. Nós conversamos com representantes que integram vários dos nichos dessa indústria, para entender um pouco como adentrar este "mundo mítico" do livro.

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Escrever


A primeira dica é unânime e contraria nossa sociedade imediatista: não adianta ter pressa. O livro é fruto de um processo de aprendizagem, que inicia e termina com um leitor. O escritor, antes de "botar a mão na massa", precisa ler muito e buscar o próprio estilo, para além da influência desses mestres. "Se aprimorar é algo primordial, que vem antes do produto 'livro'. É possível, sim, aprender a escrever, não é só uma questão de dom", defende Cleyton Cabral, jovem escritor pernambucano que se divide entre a Publicidade e o Teatro.

"Acredito no trabalho em grupo, nas oficinas. Porque o escritor geralmente é muito só e precisa desse espaço de troca", acrescenta a também escritora Patrícia Tenório. "É preciso se voltar não apenas para o fazer, mas para o conhecer. Entender técnicas, um conjunto de elementos. Há uma cultura da tagarelice, todo mundo hoje acha que é autor. Mas a verdade é que um livro não pode ser apenas um suspiro poético", aponta Sidney Rocha.

No Recife, várias oficinas literárias funcionam como espaços onde é possível formar redes e abrir caminhos. Talvez a mais antiga em funcionamento seja a do escritor Raimundo Carrero, autor de "A preparação do escritor" (Ed. Iluminuras). Ele divide sua experiência há quase três décadas com seus alunos, se tornando uma referência incontestável no meio literário local. Outro autor que embarcou na mesma direção é Sidney Rocha, que, há dez anos, discute escrita criativa em seus cursos, divididos em 18 módulos. Cleyton Cabral, escritor mais recente mas que já acumula diversos prêmios como contista, dramaturgo e autor infantil, promove, no próximo dia 31, mais uma edição de seu curso livre de escrita criativa. Cleyton é um dos cinco autores de "Escrever ficção não é bicho papão" (Ed. Geni).

Além de cursos mais breves, Patrícia Tenório coordena a especialização em escrita criativa da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), que é uma parceria com o curso mais antigo no gênero do Brasil, o da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul - esta, por sua vez, coordenada por um dos papas na área, Assis Brasil, autor de "Escrever ficção: Um manual de criação literária" (Ed. Companhia das Letras). A pós-graduação da Unicap é uma opção mais aprofundada e acadêmica. Uma outra especialização do gênero funciona na Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire), também voltada apenas para quem já tem algum tipo de graduação.

Patrícia Tenório diz que oficinas literárias oferecem espaço de troca para escritores

Patrícia Tenório diz que oficinas literárias oferecem espaço de troca para escritores - Crédito: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

 Bancar

"Qualquer pessoa pode ter a ideia de construir ela mesma uma casa, mas nem todos vão conseguir implementar esse sonho", diz o escritor Wellington de Melo, que atua como editor na Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e possui sua própria editora independente, a Mariposa Cartonera. "As pessoas julgam que pelo fato de serem alfabetizadas, são capazes de articular suas ideias e escrever um livro. E no percurso, em vez da casa desabar, esse escritor muitas vezes vai receber umas tapinhas nas costas e elogios de leitores que não têm capacidade crítica para opinar sobre aquele material", lamenta. Wellington aponta que não há nada de novo, que tudo já foi dito de milhares de maneiras possíveis, e que o grande desafio da literatura é encontrar novas maneiras de falar do mesmo. "Eu como editor só publico o que é interessante, viável. Senão, é gasto de papel. Já existe livro demais no mundo", brinca.

A alternativa ideal para quem quer fazer um livro nos moldes tradicionais seria conseguir uma editora séria, disposta a bancar a publicação. Várias recebem originais dos escritores, muitas vezes em quantidades impressionantes. Mas, para um autor iniciante, este é um caminho quase impossível. Surgem, então, outras alternativas.

A mais óbvia, para quem tem condições de fazê-lo, é a autopublicação, em que o escritor banca todos os custos. "É uma forma válida de se colocar no mercado. O fato de publicar um livro não faz de ninguém escritor, como não publicar também não descredencia. Marcel Proust foi escritor por toda a vida, antes de publicar seus livros, pagando do próprio bolso. 'Em busca do tempo perdido' hoje é considerado um monumento à literatura", afirma Sidney Rocha. Quem não tem dinheiro para se bancar, pode recorrer à alternativa dos crowdfundings ("vaquinhas virtuais").

Quando um leigo opta pela autopublicação, porém, os riscos de obter um mau resultado são grandes. Economizando em custos que seriam necessários e buscando empresas que não são editoras, mas simples publicadoras, há risco de se gerar um produto final cheio de erros, mal revisado, com projeto gráfico tosco. "Um livro natimorto", resume Wellington de Melo. Isso não representa tanto problema, quando o objetivo do autor é simplesmente ter a satisfação de ver seus escritos publicados. Mas é algo doloroso quando a ideia é alcançar outro patamar.

Uma excelente alternativa, principalmente para quem está começando, são os concursos literários. Em Pernambuco, se destacam os promovidos pelo Governo de Pernambuco (prêmios Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho) e pela própria Cepe (cujo edital, inclusive, está aberto até setembro, abrindo possibilidade para literaturas adulta e infantojuvenil). Alguns prêmios, porém, são verdadeiras arapucas, cobrando pela participação e não resultando em nenhum resultado positivo para quem se inscreve. "Existem várias maneiras de se ludibriar uma pessoa. Hoje, funciona um verdadeiro submundo nesse sentido, algo que só serve para estimular o ego, mas que atesta contra quem quer desenvolver uma carreira séria", critica Wellington.

Editar


 

Há 40 anos produzindo livros, a designer gráfica Gisela Abad diz que, muitas vezes, as pessoas têm intimidade com os livros enquanto leitoras, mas nada entendem de fontes, papel, diagramação e diversos outros detalhes relativos à produção do objeto. Ela está realizando, também no próximo dia 31, a segunda edição da palestra "Como os livros são feitos". "Começo a conversa dizendo que a primeira coisa é saber o que quero dizer e para quem. Depois dessa certeza é que se prossegue, avaliando desejos e possibilidades", explica.

Também designer especializada em produção editorial, Patrícia Cruz Lima diz que é necessário se enxergar o texto como protagonista. "Esse é o grande pecado dos livros ruins que conheço", analisa. "Clareza e legibilidade são fundamentais tanto quando se escreve, como quando se edita e organiza o material para o leitor". Ativista do livro, ela procura apoiar as editoras alternativas e já deu oficinas durante uma capacitação promovida pela Mostra de Produções Independentes (Mopi), que agrega diversas editoras. "Fazer livro não pode ser de qualquer jeito, mesmo sendo uma editora alternativa", resume.

Para além dos livros físicos, atualmente há a alternativa dos e-books. Uma das plataformas mais conhecidas é a Amazon, que estimula a produção de novos textos para serem lidos no seu próprio dispositivo, o Kindle. No site, inclusive, há um passo-a-passo que permite à pessoa cadastrar gratuitamente a sua obra. A grande dificuldade, como aponta Rodolfo Galvão (que é supervisor de mídias digitais da Cepe), é que nem sempre o resultado é atrativo e corretamente listado com palavras-chave nos sites de busca. Dessa forma, o resultado pode ser frustrante: em vez de consumido por milhões, o livro vira uma gota num oceano virtual composto por milhares de opções.

'Não adianta pressa ao produzir', alerta escritor Sidney Rocha

'Não adianta pressa ao produzir', alerta escritor Sidney Rocha - Crédito: Caio Danyalgil/Folha de Pernambuco

 Chegar ao leitor

"Millôr Fernandes fazia piada, dizendo que no Brasil é mais fácil se livrar de um cadáver do que de um livro", cita Sidney Rocha. O processo de distribuição no País é complicado, devido à logística e aos altos custos de produção e armazenamento dos livros. O modelo de livraria tradicional está se esgotando, mas o mercado editorial busca se adaptar à realidade.

Wellington conta que a Cepe, entre outras editoras, tem procurado desenvolver possibilidades de distribuição própria (promovendo e participando de feiras, vendendo pela internet e gerindo suas próprias lojas). Segundo ele, o próximo passo será vender os livros, tanto físicos como virtuais, nos grandes market places da internet. "Não há fórmulas, mas hoje, mais do que nunca, o autor não pode se encastelar numa torre de marfim. É preciso buscar um equilíbrio, identificar o momento de escrever, de ir atrás de espaços. Ter consciência de que se trata de um trabalho coletivo e de que quem vende, na verdade, não é a livraria nem a editora, é o autor, é o livro em si", finaliza Wellington de Melo. 

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