Muniz Sodré fará palestra sobre o poeta negro Solano Trindade
Muniz Sodré fará palestra sobre o poeta negro Solano TrindadeFoto: Divulgação

Um dos mais influentes pensadores brasileiros da contemporaneidade, o jornalista, sociólogo, professor universitário e escritor Muniz Sodré vem ao Recife no começo de outubro, para participar da 12ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, no dia 8, às 17h, no auditório Círculo das Ideias.

Baiano, pesquisador da língua iorubá, membro da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil e Obá de Xangô do terreiro Axé Opô Afonjá, em Salvador, Muniz Sodré vai falar sobre o poeta recifense Solano Trindade, um ícone do movimento negro e da luta pela civilidade no Brasil que é, também, o homenageado deste ano na Bienal.

"Sempre achei as bienais importantes, pela sua finalidade de divulgação, de fazer chegar o livro às mãos dos leitores. E, neste momento, cada bienal é ainda mais importante, como clareira no meio das trevas, de obscurecimento da inteligência e dos argumentos. Esse tipo de evento aparece como um momento de iluminação e, por isso, a Bienal de Pernambuco, da qual, aliás, já participei uma vez, é extremamente necessária", afirma Muniz Sodré, para quem seria importante que esse tipo de evento acontecesse em todos os estados.

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"Em alguns lugares, esses encontros são maiores que os outros e vistos como mais importantes. Mas essa não é uma questão de número, de estatística. O que importa é a ação em si. Afinal, hoje uma pessoa diz qualquer besteira numa rede social e alcança milhares de seguidores. E nada resulta disso, a nao ser falatórios intermináveis. Enquanto que, em uma bienal, uma palestra pode ter um público de cinco, dez pessoas, mas aquilo vai plantar sementes", avalia.

Muniz Sodré critica a recente polêmica envolvendo o prefeito Marcelo Crivella, que tentou proibir a venda de um livro em quadrinhos, durante a Bienal do Rio de Janeiro, por conter a imagem de dois super-heróis se beijando. "Ali foi um momento fundamental. Acredito que aconselharam mal o prefeito. Ele achava que poderia censurar, proibir uma obra. E o bonito é que foi simplesmente barrado pela bienal inteira. Crivella fez aquilo para tentar ganhar marketing, status, fama, e quebrou a cara literalmente. A voz do público da Bienal, a voz da imprensa, a voz do judiciário barraram as trevas", comemora.

Na Bienal de Pernambuco, Muniz Sodré fará um relato sobre Solano Trindade, nascido no bairro de São José, no centro do Recife. "Ele levou a vida inteira buscando a questão da libertação do negro, através da poesia, do teatro, da arte e de outros meios, sempre percebendo que a abolição não tinha resolvido nada. É preciso recuperar essa história. Falar sobre liberdade e sobre o negro, neste momento, é fundamental. No fundo de todos os ataques que as trevas realizam, não só aqui como nos Estados Unidos, está a questão dos negros. Os ataques raciais não são pontuais. Esta é uma questão atual e Solano Trindade esteve na raiz disso, já nos anos 1930", aponta.



Solano Trindade chegou a ser preso por conta de seu poema "Tem gente com fome", durante a ditadura de Getúlio Vargas, nos anos 1940. "Vou mostrá-lo ao público na versão musical dos Secos e Molhados, com Ney Matogrosso", adianta Muniz. Também militante, um dos filhos de Solano, Francisco, foi preso, torturado e morto dentro de um quartel, em 1964. "Acho muito importante lembrar de Solano Trindade, a quem as pessoas conhecem pouco e cujos livros praticamente não leem. Solano era uma figura extraordinária, e falar de poetas, de poesia, neste momento, é uma alternativa a falar de influenciadores e youtubers. É uma forma de resgatar uma fala que reflete uma comunidade, que traz à tona essa capa mística que os poetas possuem e faz as pessoas gostarem e se enxergarem naquela fala", finaliza.

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