Sidney Rocha será homenageado na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
Sidney Rocha será homenageado na Bienal Internacional do Livro de PernambucoFoto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco

Em vida e no auge de sua produção, o escritor Sidney Rocha será um dos homenageados da XII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que vai acontecer  desta sexta (04) até 13 de outubro, no Centro de Convenções, em Olinda. Cearense de nascimento e pernambucano de coração, Sidney é um dos mais respeitados autores da atualidade, e terá suas obras e importância discutidas por outros escritores, durante a programação do evento. Ele dividiu alguns de seus anseios e opiniões com a nossa reportagem.

Qual a sensação de ser um dos homenageados pela Bienal?
Aceito essa homenagem como uma forma de garantir algum espaço, diante de tantas adversidades que a arte e a literatura têm encontrado neste país. Censura, corte de incentivos, tudo baseado num conjunto de crenças violento, a que chamam de guerra cultural. Acho que um experiente militante pode, portanto, contribuir para melhorar o debate sobre essas coisas. E, humildemente, aprender. Mas ocupar esse espaço sempre lembrando de que não se trata de uma homenagem isolada. Claro, tem a ver com o reconhecimento de minha obra e isso me deixa feliz, mas tem a ver também com manter vida a luta de minha geração, de escritores e escritoras antes alijados dos processos decisórios, tratados à margem pelo poder. Esse foi, portanto, o modo como essa geração se estabeleceu: encontrando espaços onde não havia. Essa literatura de resistência é a que mais interessa, a que forma o cidadão, torna experiente o artista, cria uma identidade. Então, é uma homenagem a tantos e tantas, que ficaram pelo caminho, com sua literatura.

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Como foi que você decidiu pela carreira literária?
Há várias formas de contar isso. Mas a mais sincera é que nunca me imaginei fazendo outra coisa que não fosse desenhar e escrever. Com o tempo, essa segunda atividade me escolheu e me definiu.
Fale sobre sua vivência como escritor e nordestino, e sobre como está sendo este momento específico dentro da cultura em nosso país.
Disse antes e repito: nunca será fácil para escritores, em um país de não-leitores. Onde o livro não tem a menor importância. E essa não é a realidade do Nordeste. É do Brasil. Ela se repete em todo lugar, na verdade. Não sou dos que se reclamam. Continuarei no meu ofício de escritor, e ligado às forças progressistas, como cidadão. Pela manhã acreditando mais, à tarde menos, vejo o futuro com otimismo. Ao contrário dos jargões, eles passarão. Tento acreditar mais nas pessoas, me reunir nas escolas, nos cineclubes, em todos os lugares, para apostar nessa ideia coletiva de reação.

Como será a homenagem à sua obra, e qual a importância de se promover eventos como esse em Pernambuco?
Isso da programação os organizadores podem falar melhor. Sei de algo que achei muito legal. O que quer um escritor, ou escritora? Que seus livros sejam lidos. E assim será com pelo menos seis dos livros de contos e romances principais de minha trajetória. E serão comentados com o público de forma muito competente. Maria Valéria Rezende comentará Matriuska. Manuel Costa Pinto vai comentar sobre meu primeiro romance, Sofia. O crítico José Castello vai falar sobre O destino das metáforas, meu livro de contos vencedor do Prêmio Jabuti. João Cezar de Castro Rocha vai trazer novos aspectos sobre Guerra de ninguém, outro livro meu. De contos. Xico Sá, “pernambucano” como eu, vai falar sobre meu novo romance, A estética da indiferença. E Gonçalo M. Tavares vem de Portugal especialmente para comentar meu romance Fernanflor. É ou não é uma grande honra tudo isso? E isso dentro de um espaço onde a ênfase é uma bienal. Do livro. Esse é o grande elemento civilizatório. O livro. O livro. O livro. O resto é acessório. Por isso essa bienal é importante.

Fale sobre os projetos que tem em curso no momento, como aquele que tem levado textos e livros de autores pernambucanos para escolas públicas.
Pretendo terminar a trilogia Geronimo, na qual trabalho há dez anos. Falta um volume. Devo publicar livros inéditos e em vários gêneros este ano, ainda, e mais no ano que vem, porque é disso que vivo e é isso que fazem os escritores de verdade: escrever. Continuarei com os projetos sociais, de educação e cultura, nas escolas e bibliotecas públicas, onde se incluem meus cursos de leitura criativa e as revistas. Mas isso tem mais do cidadão que do escritor. É preciso conciliar isso, o escritor e o cidadão-militante. Mas tenho conseguido.

Que conselhos você daria a quem deseja escrever e ler melhor, e para quem deseja ser também um escritor?
Costumo dizer aos meus alunos, a parte mais importante do verbo “escrever” é algo implícito, ali: “ver”. Tente ver o mundo de outro ponto de vista. Do Outro. Não se limite a contar histórias, isso qualquer panaca faz na internet. Ouça as pessoas. Ouça as ruas. Ouça as vozes. Dê voz ao que não tem. Ser inanimado ou com alma, há uma voz em cada coisa. Faça silêncio. Deixe de ser tagarela. Veja. Veja as coisas e a intenção das coisas. Busque extrair essa intenção de cada gesto, de cada objeto. Transforme tudo em literatura. Com o tempo, você saberá que foi picado por esse escorpião e ninguém porá em dúvida que, enfim, você se tornou o o que é: um escritor. Uma escritora.

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