Atualmente, o TAP conta com 20 atores no elenco
Atualmente, o TAP conta com 20 atores no elencoFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

É impossível fazer um resgate da história teatral pernambucana sem citar o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Criada pelo encenador e médico Valdemar de Oliveira (1900-1977), a instituição ostenta o título de mais antigo grupo teatral em atividade no Brasil. Encaminhando-se para seu aniversário de oito décadas, que será celebrado em 2021, a companhia sobrevive a duras penas, travando uma incessante batalha para que seu brilhantismo não fique restrito aos ecos do passado.

A direção geral do TAP segue nas mãos de Reinaldo de Oliveira, de 89 anos, filho e herdeiro artístico de Valdemar. No entanto, o fechamento temporário do Teatro Valdemar de Oliveira, no bairro da Boa Vista, sede do grupo, fez com que uma nova geração da família Oliveira se unisse para tomar as rédeas da companhia. Atualmente, além do próprio Reinaldo e de seu vice, o advogado Carlos Alberto Leal de Barros Júnior, também integram a diretoria os primos Yêda Bezerra de Mello, Thiana Santos e Pedro Oliveira. O foco principal do trabalho do trio tem sido arrecadar recursos para levar adiante os planos de modernização da casa de espetáculos fundada pela instituição.

O teatro foi interditado em 2015 pelo Corpo de Bombeiros, por problemas de acessibilidade e riscos em caso de incêndio. Foi nesse momento crítico que surgiu a campanha "Dê a mão ao TAP". Graças ao valor arrecadado com apresentações e às contribuições de empresas e admiradores, o espaço passou por uma reforma inicial e voltou a funcionar em 2018. Foi necessário reduzir os 400 lugares a 318, para que fosse possível realizar mudanças essências, como a colocação de lugares para cadeirantes e obesos. O local também conta com camarins revitalizados e banheiros para cadeirantes e pessoas com dificuldades de locomoção.

Leia também:
Ana Lúcia Torre protagoniza delicadezas em espetáculo no Recife
Palácio Joaquim Nabuco abriga um acervo histórico precioso

"É importante frisar para o público que o teatro está de portas abertas novamente. Já cumprimos cerca de 90% das exigências e estamos com o alvará de funcionamento, recebendo espetáculos de todos os tipos, além de palestras e ensaios. Queremos que nos procurem cada vez mais, porque estamos aqui para servir não só à própria arte, mas também à comunidade geral", afirma Pedro de Oliveira, atual diretor artístico da companhia. No entanto, ainda são necessários mais ajustes para que o espaço - incluindo o auditório anexo, Alfredo de Oliveira, que está interditado - fique com a estrutura desejada.

O Teatro Valdemar de Oliveira passa por reformas desde 2015

O Teatro Valdemar de Oliveira passa por reformas desde 2015 - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco



"Acabamos de ter mais uma conquista, que foi a reforma do foço de orquestra, mas ainda precisamos resolver muita coisa aqui dentro. Gostaríamos de trocar todo o forro, a parte dos urdimentos e a caixa cênica, além de dois andares de camarins que ainda não foram mexidos e uma sala para armazenar e tornar disponível nosso acervo de fotos e documentos. Quando se faz uma obra dessas, é preciso fechar o teatro por alguns meses. Teríamos que ter dinheiro em caixa para conseguir bancar a manutenção, porque as contas continuam chegando", detalha Thiana Santos, que está à frente da diretoria de patrimônio.

Para que esses planos saiam do papel, os gestores devem dar continuidade à campanha de arrecadação de doações. "Não temos nenhum subsídio governamental para manter toda essa estrutura que temos aqui. Por isso, pedimos que as empresas locais também se sensibilizem e ofereçam ajuda", comenta Pedro.

Teatro Valdemar de Oliveira

Localizado na Praça Osvaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, o Teatro Valdemar de Oliveira foi inaugurado com o nome de Nosso Teatro, em 23 de maio de 1971. Com a morte do seu criador, o espaço foi rebatizado na data em que completou seis anos de fundação. O apoio da sociedade pernambucana sempre foi fundamental para a manutenção da casa. Em 1980, um incêndio destruiu a edificação, que só foi reinaugurada sete anos depois, graças a uma grande mobilização.

Imagem da construção da sede do TAP, nos anos 1970

Imagem da construção da sede do TAP, nos anos 1970 - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco



"Na década de 1990, quando Recife tinha praticamente todos os seus teatros públicos fechados, quase toda a produção teatral da cidade escorria para o Valdemar. Era uma casa que funcionava de quinta-feira a domingo, com quatro espetáculos por dia", aponta o teatrólogo Rafael Almeida, doutorando em Artes Cênicas na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Apesar de seu valor histórico, os proprietários não pensam em tombar o prédio, mas sim torná-lo cada vez mais moderno. "Temos projetos arquitetônicos para ampliar e dar mais acesso a outras companhias, com mais salas de espetáculo, cafeteria e serviços. Estamos trabalhando em tudo isso e, se Deus quiser, vamos conseguir manter essa chama do teatro nacional acesa", declara Pedro, ressaltando o valor do Teatro Valdemar de Oliveira como símbolo de resistência da arte pernambucana.

Por amor

No final de julho, o grupo estrelou o musical "Bibi, em casa de Ferreira, espírito de palco", em sessão única, no Teatro de Santa Isabel. Subiu ao palco o elenco renovado da companhia, que conta com 20 artistas, entre familiares e amigos. A formação segue o princípio definido por Valdemar de utilizar apenas atores amadores em cena.

O pesquisador Rafael Almeida explica que essa foi a forma encontrada pelo encenador, na década de 1940, de dar dignidade ao ofício, já que, naquela época, os atores profissionais eram obrigados a se registrarem na Polícia. "O TAP quebrou paradigmas, levando médicos e esposas de médicos ao palco. Era a alta sociedade representando, o que ajudou a combater o preconceito que existia", conta.

Thiana Santos e Pedro de Oliveira, neta e sobrinho de Valdemar, fazem parte da diretoria do TAP

Thiana Santos e Pedro de Oliveira, neta e sobrinho de Valdemar, fazem parte da diretoria do TAP - Crédito: Ed Machado/Folha de Pernambuco



A nova equipe de artistas também estrelou os espetáculos "Nós, voz, Elis", "As mulheres de Pedro" e "Cantar para subir". "O trabalho de todos eles é impagável, pois fazem tudo por amor. Essa era, inclusive, a definição de amador dada por Valdemar. E olhe que são mais profissionais do que os profissionais, porque eles entram comigo na história. Isso é que é o mais lindo", elogia Pedro. Embora não descarte novas montagens, o diretor diz que ainda não há nada confirmado.

Mesmo cientes de todas as dificuldades envolvidas, os atuais diretores do TAP se dizem honrados com a tarefa de dar continuidade a uma história repleta de momentos memoráveis. "Quando passamos pelo susto da interdição, ponderamos muito a respeito do que a gente faria sem recursos. Abrimos mão de muitas coisas das nossas vidas pessoais para estarmos aqui no dia a dia, encarando como uma missão, não só por nossa família, mas por todos os pernambucanos", diz Thiana, envolvida em tantas memórias que a companhia é capaz de despertar.

 

veja também

comentários

colabore com a folha

comece o dia bem informado: