Vida Saudável

Ney Cavalcanti e Solange Paraíso

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O interesse em ser fitness só aumenta, mas o que é ter vida fit?
O interesse em ser fitness só aumenta, mas o que é ter vida fit?Foto: Ed Machado/Arquivo Folha

Outro dia, uma amiga postou uma foto com pacotinhos de produtos “naturais”, com a seguinte legenda: “me tornei quem mais temia: feira fitness.” Conhecendo o lado bem humorado da criatura, dei uma gargalhada, na minha solidão de quem espreita os “stories” de amigos numa rede social. Contudo, levei a sério e me pus a refletir sobre isso, ao ponto de anotar depois, e tomar como um bom mote para a coluna.

Nestes 42 anos de atuação como nutricionista (somados a outros 4, enquanto estudante) ouvi perguntas de pessoas de todas as condições socioeconômicas, gêneros, faixas etárias e estados fisiológicos, acerca de uma dieta ideal, de comida que não engorde, de um alimento milagroso. Para entrar no clima e começar a discorrer aqui, busquei o significado de fitness e encontrei:

Fitness é uma palavra de origem inglesa e significa “estar em boa forma física“. O termo é normalmente associado à prática de atividade física e se refere ao bom condicionamento físico ou bem estar físico e mental. (...) Portanto, fitness significa a resistência ou condição do corpo para funcionar com eficiência em todas as atividades do dia a dia e se manter saudável. (*)

Ocorre que o significado de fitness se expandiu e gerou uma onda; invadiu o imaginário de milhões de pessoas, para as quais as expressões “corpo fitness”, “roupa fitness”, “comida fitness” (e agora a “feira fitness”), remetem a status relacionados a emagrecimento, haja vista a ditadura da beleza, que estimula o culto aos corpos magros, musculosos, com proporções de gordura beirando as dos seres esquálidos, produtos das epidemias, das guerras e das pragas que assolaram a Humanidade.

A propósito de feira fitness, li outro dia uma citação relativa a uma pesquisa de hábitos alimentares, que destacava: “40% dos alimentos considerados fit acabam sendo abandonados no armário.” (**)

A estas alturas, é inevitável lembrar que no começo da primeira década dos anos 2000, uma tal “ração humana” estava em voga por aqui, e a onda perdurou entre os consumidores incautos por até uns 10 anos depois.

A “ração humana”, tinha variações e chegou a ser formulada com todos estes ingredientes, simultaneamente: soja em pó, farelos de trigo e de aveia, gergelim, linhaça dourada, guaraná em pó, levedo de cerveja, gérmen de trigo, açúcar mascavo, gelatina sem sabor, quinoa, cacau em pó e farinha de maracujá.

Na época eu trabalhava com um público variado que diariamente trazia o assunto, querendo confirmar as benesses prometidas pela referida panaceia. Como exercício de reflexão, fiz a análise do conteúdo calórico da fórmula para 1 dose matinal (que dava uns dois copos grandes, quando misturados os ingredientes à água). Conclusão: de hipocalórica a fórmula não tinha nada, e, muito menos, deveria ser recomendada do ponto de vista nutricional.

A reflexão contida no presente artigo se constitui apenas em alerta, para não entrar no mérito da questão, sem conhecer os itens da “feira fitness” da amiga. O risco de embarcar em sugestões de leigos, ou mesmo de acreditar nos marqueteiros de plantão que estão a serviço da indústria gananciosa (e aqui, infelizmente, estão incluídos profissionais de ética duvidosa) é se entupir de produtos que podem até ter o seu valor, porém terminam sendo utilizados de forma equivocada, sem orientação especializada, o que redunda, até, em desperdício de dinheiro...

Bom mesmo é comer Comida de Verdade, e quando for necessário, de fato, consumir algum suplemento nutricional, que seja prescrito com critérios embasados em evidências científicas...

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* É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal

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