“A habilidade que vai garantir o futuro não é apenas executar bem, é gerenciar o improvável”, diz Luciano Salamacha, professor da FGV
“A habilidade que vai garantir o futuro não é apenas executar bem, é gerenciar o improvável”, diz Luciano Salamacha, professor da FGVFoto: Divulgação

Luciano Salamacha, professor de MBA da FGV e da Esic Internacional, foi convidado pela Folha de Pernambuco para falar sobre um tema relevante para qualquer carreira profissional: a tomada de decisão. Além das 10 dicas do professor para desenvolver essa importante habilidade, publicadas na matéria do último final de semana do caderno Concursos & Empregos do caderno Folha Mais, apresentamos aos nossos leitores uma entrevista exclusiva que o professor concedeu ao Blog. 

Leia também:
A arte de decidir


Folha PE - Qual a importância da tomada de decisão para uma carreira profissional?

Luciano Salamacha - Se você pegar a evolução das profissões, via de regra, lá no início da era industrial e do século passado até a metade desse período, as pessoas buscavam profissões ou habilitações técnicas. Então, você tinha que ser ferreiro, carpinteiro, marceneiro ou qualquer coisa assim. A partir das décadas de 60, 70 e 80, começaram a virar as profissões, que passaram a ser fruto de bases de conhecimento estruturado. Então, proliferam as faculdades e universidades. O curso de administração, por exemplo, nasce a partir da década de 60 e começa a estruturar, replicar e habilitar as pessoas a utilizar esse conhecimento.

Depois, o mercado profissional também começou a ser invadido - além dos certificados das formações, que têm sua validade - por algum tipo de 'ondas de valorização'. Na década de 80, da inflação em alta, quem era valorizado? Os executivos financeiros. O que permeia toda essa evolução e continua sendo o mesmo requisito do começo ao fim? A capacidade das pessoas de tomar decisões baseadas nas variáveis que têm à sua frente. A nossa tomada de decisão está presente tanto nas decisões mais triviais que sequer temos consciência, até as mais sofisticadas. Tudo é tomada de decisão e no momento em que você tem um avaliação sobre toda a base profissional das pessoas, o que sobra ao profissional para garantir estar preparado para um cenário que ele não conhece ainda é ele se sentir confortável e habilitado para a tomada de decisão. Esse é o processo mais importante hoje para que o profissional continue sendo válido e tendo empregabilidade e destaque no mercado.

FolhaPE - Quais as principais barreiras para uma boa tomada de decisão?

LS - Basicamente, há influências ambientais, psicológicas, emocionais e a grande sacada da tomada de decisão que pouca gente percebe é o quanto se é capaz de fazer o autodiagnóstico numa percepção sobre como está a sua vida. A gente tem exemplos interessantíssimos sobre como em uma mesma decisão, com as mesmas variáveis, apenas influenciadas por um estado de espírito diferente, podem ser completamente diversas. O que a gente precisa entender é que a decisão se constrói de dentro para fora e não de fora para dentro. Os estímulos externos poderão ser mais ou menos absorvidos e impactantes na medida em que eu tenho um equilíbrio emocional e ciência do que estou fazendo.

Quanto mais relevante é uma a decisão, maior é exigida do profssional a capacidade de se isentar e tentar se descontaminar do processo. Mas isso não quer dizer esfriar e se tornar alguém mecânico e insensível. A sensibilidade faz parte da decisão. É por isso que um pai, mesmo percebendo que o filho está errado, às vezes decide que não é dia de repreender o filho, pois ele já teve uma lição importante. O próprio judiciário diz que algumas penas nem precisam se impostas pois um pai que bebeu dirigindo e provocou a morte de sua mulher e do seu filho já recebeu a pena imposta pela natureza.

FolhaPE - Há decisões para serem tomadas em todas as áreas da vida, por exemplo, na política, quando votamos e escolhemos nossos representantes. Como podemos usar nossas escolhas de forma mais inteligente?

LS - Toda decisão envolve quatro variáveis. A primeira variável de qualquer decisão pode parecer óbvia, mas é mais que isso. É a futuridade. Significa que se eu estou tomando uma decisão para o futuro eu não posso querer a perfeição e a garantia absoluta de que minha decisão não terá qualquer tipo de falha. A segunda característica é o risco. Risco porque posso planejar, prospectar, fazer o que for, mas toda decisão envolve risco e profissionais que querem se isentar do risco, automaticamente não desenvolvem a capacidade de decisão. Decisão exige a assunção de risco.

A terceira variável é a repercutividade, ou seja, a minha decisão, por mais simples e isolada que seja, poderá repercutir muito além doque se imagina. A quarta característica de uma decisão é a subjetividade. A interpretação de cada fato depende, como eu disse antes, de variáveis psicológicas, ambientais e emociais. A grosso modo, todo fundamento de uma decisãopássa por variáveis inconcientes, em que a pessoa é envolvida por uma reação química e hormonal no cérebro que é muito mais forte do que ela consegue controlar.

O requisito maior é a capacidade de fazer uma autoleitura. Eu posso estar equilibrado mas fazer uma leitura equivocada sobre o meu equilíbrio e, ao não fazer uma leitura correta, automaticamente a minha decisão estar fortemente comprometida. Talvez eu não perceba que, no fundo, essa minha indiferença também está provocando um problema na minha decisão. Por exemplo, se eu estou numa equipe de vendas e todos estão empolgados mas eu estou extremamente racional, sem perceber, estou destruindo todo o ânimo dos outros, o que vai influenciar na suas decisões.

FolhaPE - A tomada de decisão, então, é uma habilidade que precisa ser trabalhada para uma carreira de sucesso?

LS - Talvez essa seja a grande competência que vai se exigir dos profissionais daqui para frente. Já que eu não sei para onde vou e que tipo de habilidade técnica vou precisar, saber decidir é muito relevante. Por exemplo, eu estou num conselho de administração e tenho dois profissionais para serem promovidos. Um profissional "A" que está há 20 anos na empresa e conhece profundamente o processo da atividade que está envolvido. Já o profissional "B" também tem 20 anos de empresa mas não conhece tanto daquela atividade. Eu preciso contratar um dos dois para uma certa área.E m tese, o candidato "A" é perfeito, porém, quando eu vou olhar mais amiúde, percebo que o "A" é ótimo para obedecer e seguir ordens, enquanto o "B", tem uma capcaidade analítica de entender as variáveis e manter um processo de autoconhecimento para identificar como processar aquela decisão e o mais relevante: ele consegue, mesmo entendendo pouco, tomar as decisões mais corretas. Adivinhe quem é promovido? O profissional B.

Do ponto de vista etimológico, decisão vem do latim "des", que significa afastar + "caedere", que significa cortar, jogar fora. Decidir nada mais é do que escolher e eliminar as demais alternativas. Então, basicamente, cortar e jogar fora é a capacidade de tomar decisões. Quando eu entendo que esse é meu papel, vou entender que não sou perfeito, que sou sujeito a erros, que toda situação requer um timming, entendo que a habilidade que vai garantir o futuro não é executar bem . É sim gerenciar o improvável, o não previsto. É aí que a pessoa cresce e mostra a que veio.

comece o dia bem informado: