Real se aprecia com commodities enquanto Trump não confirma 'tarifaço'
Brasil figura no grupo dos três maiores exportadores de aço aos EU
Apesar do sinal predominante de alta da moeda americana no exterior, o real experimentou um leve movimento de apreciação nesta segunda-feira, 10, embalado pelo apetite de estrangeiros por ativos domésticos, em dia de avanço de preços de commodities como petróleo e minério de ferro.
Segundo operadores, o anúncio ontem do presidente Donald Trump de imposição de tarifas de 25% sobre aço e alumínio a partir de hoje e de tarifas recíprocas ainda nesta semana não trouxe grande aversão ao risco. Investidores ainda esperam a decisão oficial e especulam sobre possível recuo tático de Trump, como ocorreu nos casos de México e Canadá.
Pela manhã, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, indagado sobre eventual resposta do governo brasileiro sobre a taxação de 25% sobre importações de aço e alumínio pelos EUA, disse que a decisão é só se manifestar "oportunamente", com base em intenções concretas.
O Brasil figura no grupo dos três maiores exportadores de aço aos EUA, ao lado de México e Canadá. À tarde, o vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou que acredita no diálogo, ressaltando que, em episódios anteriores de taxação, houve estabelecimento de cotas.
Leia também
• Bolsas de NY fecham em alta, reagindo a anúncios de Trump sobre tarifas a aço e alumínio
• Moedas Globais: dólar avança ante pares com expectativas de anúncio oficial de tarifas
• Bolsas da Europa fecham em alta, com foco em possíveis efeitos de disputas tarifárias
Com o avanço da moeda americana no exterior, o dólar até abriu em alta por aqui e chegou a superar o nível de R$ 5,80 na primeira hora de negócios, com máxima a R$ 5,8246, mas arrefeceu longo em seguida e registrou a mínima da sessão ainda pela manhã, a R$ 5,7648. Após rondar a casa de 5,78 ao longo da tarde, o dólar fechou a R$ 5,7860, em queda de 0,13%, passando a acumula desvalorização de 0,87% em fevereiro e de 6,38% em 2025.
Operadores notam que a liquidez foi reduzida, o que sugere ausência de mudanças relevantes de posições. Principal termômetro do apetite por negócios, o contrato de dólar futuro para março teve volume fraco, abaixo de US$ 10 bilhões.
O economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, vê a apreciação do real como fruto de entrada de recursos estrangeiros, com a alta das commodities e a atratividade das operações de carry trade. Ele cita a possibilidade de investidores virem ao Brasil como forma indireta de aproveitar a melhora de expectativas para a China.
"Bancos de investimento dizem que é muito difícil investir na China. A bolsa lá apresenta um rali muito grande. Comprar ativos de países com exposição à economia chinesa seria uma alternativa E o Brasil com suas blue chips se encaixa nessa definição", afirma Borsoi.
Operadores também veem a possibilidade de certo recuo de prêmios de risco que haviam sido embutidos na taxa de câmbio no fim do pregão da última sexta-feira, 7, após a ventilação de possível reajuste do Bolsa Família em razão da alta de alimentos, na esteira da entrevista ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, em entrevista ao portal Deutsche Welle. A proposta foi desmentida em nota pela Casa Civil no início da noite de sexta-feira, mas após o fechamento do mercado de câmbio Fontes da equipe econômica já haviam dito que se tratava apenas de ruído.
"Houve um estresse na sexta-feira com a notícia de que poderia haver aumento do Bolsa Família, que depois foi desmentido pelo ministério da Fazenda. O dólar até se valorizou um pouco na tarde de sexta, mas hoje já está em queda", afirma o economista-chefe do Banco Master, Paulo Gala, para quem a perspectiva de mais aumento da taxa Selic ampara o real. "Com um diferencial de juros alto, há uma pressão forte para a apreciação da taxa de câmbio, podendo levar o dólar para a casa dos R$ 5,50. O carrego está muito alto, tornando o real atrativo para investidores estrangeiros".
Amanhã sai o IPCA de janeiro, que deve mostrar variação de 0,16%, segundo mediana de Projeções Broadcast, após alta de 0,52% em dezembro. Analistas ouvidos pelo Broadcast afirmam que boa parte da desaceleração do índice será explicada pela entrada do bônus de Itaipu na tarifa de energia elétrica. O Boletim Focus desta segunda-feira trouxe nova piora das projeções de inflação e perspectiva de taxa Selic em 15% no fim deste ano.
No exterior, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes - operou em leve alta e rondava os 108,300 pontos no fim da tarde, após máxima aos 108,440 pontos. A moeda americana subiu na comparação com a maioria das divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com exceções como o real, o peso chileno e o dólar australiano.
Investidores aguardam a divulgação nesta semana da inflação ao consumidor e ao produtor nos EUA para calibrar as apostas em torno dos próximos passos do Federal Reserve. Por ora, o BC americano diz que a política monetária está "bem posicionada" e vai acompanhar os indicadores para avaliar os impactos das medidas de Trump sobre atividade e inflação. O presidente do Fed, Jerome Powell, fala no Congresso americano amanhã, 11, e na quarta-feira, 12.