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ESTADOS UNIDOS

Juíza proíbe ações do governo Trump para prender e deportar estudante sul-coreana

Yunseo Chung, que vive legalmente nos EUA desde os 7 anos de idade, foi detida em um protesto pró-Palestina no começo do mês e estava sendo procurada pela Imigração

Campus da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, é ocupado por manifestantes pró-palestinosCampus da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, é ocupado por manifestantes pró-palestinos - Foto: Charly Triballeau/AFP

Uma juíza federal nos EUA determinou que as autoridades migratórias interrompam suas tentativas de prender e deportar uma estudante sul-coreana de 21 anos da Universidade Columbia, que vive no país de maneira regular e que foi detida em um protesto pró-Palestina no começo do mês.

O caso guarda semelhanças com o de Mahmoud Khalil, outro aluno de Columbia que corre o risco de ser deportado.

Na decisão da juíza Naomi Buchwald, anunciada nesta terça-feira, ela aponta que os antecedentes de Yunseo Chung não indicam que ela traga riscos à comunidade, ou que tenha se comunicado com organizações consideradas terroristas pelos EUA. Por isso, ela aponta, não há base legal para uma eventual prisão ou deportação para a Coreia do Sul.

Em uma ação apresentada na segunda-feira em um tribunal federal de Nova York, seus advogados reconhecem que ela participou de um protesto pró-Palestina na Faculdade Barnard, ligada a Columbia no dia 5 de março — na ocasião, Chung estava entre os estudantes detidos pela polícia após tentarem ocupar um dos prédios da instituição.

Ela foi liberada pouco depois, mas seu nome entrou no radar das autoridades migratórias: promotores federais autorizaram operações de busca em locais frequentados pela estudante, incluindo na residência estudantil onde ela morava até o começo do mês.

Citado pelo New York Times, um representante do Departamento de Segurança Interna afirmou que ela havia "se envolvido em conduta preocupante, incluindo quando foi presa pela polícia de Nova York,durante um protesto pró-Hamas na Faculdade Barnard. Ela está sendo procurada para procedimentos de remoção sob as leis de imigração". No comunicado, ele ainda afirma que a agência de imigração, o ICE, "investigaria indivíduos envolvidos em atividades em apoio ao Hamas, uma organização terrorista estrangeira”.

Na ação movida na segunda-feira, seus advogados afirmaram que Chung participou de atos “em apoio aos direitos humanos dos palestinos”, no ano passado, mas que “não dirigiu ou organizou as manifestações, tampouco deu declarações à imprensa ou à universidade, e não teve um papel de liderança”.

Por fim, eles sugerem que a jovem poderia ter sido escolhida como um “exemplo” pelas autoridades federais: eles citam uma ordem do secretário de Estado, Marco Rubio, determinando ter identificado “dois residentes legais permanentes” que deveriam ser presos.

Um deles era Mahmoud Khalil, preso no dia 8 de março. O outro, alegam, seria Yunseo Chung. Ela permanece nos Estados Unidos, em um local não revelado.

— Como muitos milhares de estudantes em todo o país, Yunseo levantou sua voz contra o que está acontecendo em Gaza e em apoio a colegas estudantes que enfrentam disciplina injusta — disse ao New York Times uma de suas advogadas, Naz Ahmad. — Não pode ser o caso de uma aluna nota A que viveu aqui a maior parte de sua vida ser levada embora e potencialmente deportada, tudo porque ela ousa falar.

O Departamento de Segurança Interna não se pronunciou.

Pressão financeira
Dentre as universidades criticadas pelo presidente Donald Trump e seus aliados desde o estouro de protestos pró-Palestina no ano passado, Columbia é um alvo preferencial do presidente (e também de lideranças democratas), cuja liderança foi atacada por supostamente permitir discursos pró-Hamas e por não agir contra atos de antissemitismo.

Na semana passada, a administração cedeu e concordou com um pacote de reformas, exigidas pela Casa Branca, que incluem uma revisão das regras para protestos e mudanças nos departamentos de estudos do Oriente Médio, Ásia e África — a medida é uma tentativa da universidade de recuperar cerca de US$ 400 milhões em verbas federais suspensas pelo republicano.

Além de buscar uma intervenção em uma das principais universidades dos EUA, Trump também quer punir os alunos e funcionários que participaram de atos pró-Palestina.

O alvo mais famoso é Mahmoud Khalil, um estudante que se tornou um rosto conhecido dos protestos do ano passado, e que, assim como Chung, tinha um visto de residência permanente, que foi revogado pelo ICE. Ele está detido em uma unidade de processamento de imigrantes no estado da Louisiana.

No fim de semana, o governo federal o acusou de mentir no formulário para a obtenção do “Green Card”, ao omitir seu trabalho na Embaixada do Reino Unido em Beirute, quando atuou no setor relacionado à Síria, e para a agência da ONU para os palestinos, a UNRWA, acusada por Trump e por Israel de ajudar organizações terroristas.

Uma porta-voz da agência disse à CNN que ele trabalhou como estagiário, e não foi efetivado. Khalil nasceu na Síria, tem cidadania argelina e entrou no país legalmente como estudante, posteriormente obtendo a residência permanente.

— Essas alegações de última hora, posteriores ao fato, por mais tolas que sejam, mostram principalmente que o governo deve saber que os supostos fundamentos de “política externa” para a remoção de Mahmoud são absurdos e inconstitucionais disse o advogado de Khalil, Baher Azmy, à rede NBC. — [As alegações] não podem mudar o fato óbvio que o governo admitiu: ele está sendo punido da maneira mais autocrática por seu discurso protegido constitucionalmente.

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