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ESTADOS UNIDOS

Juízes americanos sofrem ameaças após desafiarem governo Trump

As ameaças podem ainda não ter se tornado violência física, mas parecem estar aumentando, à medida que Trump questiona a legitimidade do sistema jurídico

O presidente dos EUA, Donald TrumpO presidente dos EUA, Donald Trump - Foto: Brendan Smialowski / AFP

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inflamou as redes sociais na última terça-feira ao pedir a destituição de um juiz federal que suspendeu seu decreto sobre deportações em massa sob a “Lei do Inimigo Estrangeiro”. O apelo do republicano provocou uma onda de ameaças contra magistrados, com publicações mostrando juízes algemados.

O pedido de destituição ocorreu em um contexto alarmante. Nove dias antes, policiais em Charleston, na Carolina do Sul, foram enviados à casa de uma das irmãs da juíza da Suprema Corte Amy Coney Barrett devido a uma ameaça de que havia uma bomba caseira em sua caixa de correio. “A detonação do dispositivo será acionada assim que a caixa de correio for aberta novamente”, dizia a ameaça enviada por e-mail.

 

A suposta bomba era um trote, mas, segundo os juízes, as ameaças e intimidações enfrentadas por eles e suas famílias nas últimas semanas são reais. No momento em que o Judiciário está decidindo questões cruciais sobre a legalidade das políticas do governo Trump, o risco de violência contra juízes parece estar aumentando.

— Sinto que estão jogando roleta russa com nossas vidas — disse a juíza Esther Salas, do Tribunal Distrital de Nova Jersey. Em 2020, seu filho de 20 anos foi assassinado em sua casa por um advogado que se identificava como “anti-feminista”.

— Isso não é exagero — acrescentou. — Estou implorando para que nossos líderes percebam que há vidas em jogo.

As ameaças e intimidações podem ainda não ter se tornado violência física, mas parecem estar aumentando, à medida que Trump, seus assessores e apoiadores questionam quase diariamente a legitimidade do sistema jurídico americano. Não há evidências de que os juízes estejam sendo influenciados por essas pressões, mas, no mínimo, a percepção pública sobre suas decisões pode ser afetada pelo volume de ataques ao Judiciário.

Bombas, SWAT e entregas de pizza
As tentativas de intimidação têm assumido diversas formas: ameaças de bomba, ligações anônimas enviando equipes da SWAT às casas dos juízes e até entregas de pizza — uma brincadeira aparentemente inofensiva, mas que carrega um recado.

— Eles sabem onde você e sua família moram — disse um juiz que supervisiona processos contra a administração Trump e recebeu uma entrega de pizza. O magistrado pediu anonimato por questões de segurança.

No mesmo dia em que a polícia respondeu à ameaça na casa da irmã da juíza Barrett, o Serviço de Delegados Federais dos EUA emitiu um comunicado: juízes federais estavam sendo alvos de entregas anônimas de pizza da Domino’s. Segundo a polícia, membros da família da juíza Barrett estavam entre os que receberam as entregas.

"Essa forma emergente de assédio foi observada em vários distritos do país", dizia o comunicado.

Ameaças são relacionadas a processos contra o governo
Juízes indicados por presidentes de ambos os partidos têm sido alvos, mas um padrão está emergindo: muitas das ameaças são direcionadas a magistrados que estão julgando processos contra o governo Trump.

"Avaliamos que esses incidentes estão relacionados a casos de grande repercussão que receberam ampla cobertura da mídia e atenção pública", escreveu o Serviço de Delegados Federais sobre as entregas de pizza.

Após o juiz John C. Coughenour, do Tribunal Distrital do Oeste de Washington, emitir uma ordem bloqueando a tentativa do governo Trump de abolir a cidadania por nascimento para filhos de não cidadãos nascidos nos EUA, ele foi alvo de um ataque de “swatting” — uma denúncia falsa que levou policiais fortemente armados à sua casa, acreditando haver um invasor armado. Logo depois, uma ameaça de bomba em sua caixa de correio foi enviada ao FBI, mas revelou-se um trote.

Após o juiz federal John J. McConnell Jr., de Rhode Island, bloquear uma tentativa do governo Trump de congelar até US$ 3 trilhões em fundos federais para os estados, seu tribunal recebeu um grande volume de mensagens de voz e e-mails, alguns dos quais foram encaminhados ao Serviço de Delegados Federais para investigação, segundo o porta-voz da corte, Frank Perry.

Ameaças contra juízes e ministros da Suprema Corte não são novidade. Em junho de 2022, um homem armado, Nicholas John Roske, foi preso perto da casa do juiz Brett M. Kavanaugh e disse à polícia que havia viajado da Califórnia para matá-lo, segundo autoridades federais. Seu julgamento está marcado para junho.

Mesmo assim, membros do Judiciário federal estão alertando que os perigos parecem estar aumentando, tanto na internet quanto no mundo real.

Dois juízes federais de tribunais de apelação, Jeffrey S. Sutton e Richard J. Sullivan, ambos indicados por presidentes republicanos, levantaram preocupações sobre a segurança dos juízes no início deste mês, após uma reunião da Conferência Judicial, o órgão nacional de formulação de políticas do Judiciário federal.

'Ataque à independência judicial'
— Críticas não são surpresa; fazem parte do trabalho — disse o juiz Sutton, que é o presidente do Tribunal de Apelações do Sexto Circuito. — Mas acho que, quando chegam ao nível de uma ameaça, trata-se de um ataque à independência judicial.

Na terça-feira, Trump não apenas pediu o impeachment do juiz distrital James Boasberg, mas também o chamou, em uma postagem nas redes sociais, de “lunático da esquerda radical, encrenqueiro e agitador”.

O ataque levou o presidente da Suprema Corte, John G. Roberts Jr., a repreender Trump em uma rara declaração pública. “O impeachment”, escreveu ele, “não é uma resposta apropriada para discordâncias sobre uma decisão judicial.”

Mas, até então, os seguidores de Trump já haviam seguido seu exemplo. Perfis anônimos nas redes sociais chamaram juízes que decidiram contra o ex-presidente de “traidores” e “fora da lei”. Uma postagem chamou Boasberg de “juiz que ama terroristas”. Outra sugeriu que ele fosse enviado para “Guantánamo por 20 anos”.

Laura Loomer, aliada próxima de Trump, direcionou a atenção de seus 1,5 milhão de seguidores online para a filha do juiz Boasberg.

“Sua família é uma ameaça à segurança nacional”, escreveu ela.

A postagem ecoou um episódio anterior, quando Elon Musk, bilionário e aliado de Trump, repostou informações pessoais que Loomer alegava ter encontrado no perfil do LinkedIn da filha do juiz McConnell.

Motivações partidárias
O juiz James C. Ho, um conservador indicado por Trump, afirmou não estar convencido de que houve um aumento nas ameaças e sugeriu que os alertas levantados agora possam ter motivações partidárias.

— Juízes enfrentam ataques de ódio, e pior, há anos — disse Ho, citando ameaças contra os juízes conservadores Matthew Kacsmaryk, do Texas, e Aileen Cannon, da Flórida. — Defender a independência judicial apenas quando você gosta das decisões não é proteger o Judiciário. É politizá-lo.

Dados coletados pelo Serviço de Delegados Federais mostram que o número de ameaças investigadas contra juízes federais, promotores, funcionários dos tribunais e visitantes de tribunais federais caiu nos últimos dois anos, de 1.362 em 2022 para 822 em 2024. O órgão não respondeu a um pedido de dados sobre os primeiros meses de 2025.

No relatório de fim de ano do Judiciário federal, o juiz Roberts fez um alerta sério sobre um “aumento significativo” nas ameaças. Segundo ele, os dados mostram que as ameaças e comunicações hostis direcionadas a juízes triplicaram na última década.

— Os juízes com quem converso estão preocupados — disse Gabe Roth, do grupo Fix the Court. — Mais do que estavam quatro, oito ou 12 anos atrás.

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