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Músico venezuelano que migrou do Chile para os EUA é deportado para prisão em El Salvador

Arturo Suárez Trejo, cujo trabalho é conhecido nas redes, está entre os 261 imigrantes enviados pelas autoridades americanas para o país da América Central no fim de semana

Imigrantes deportados pelos EUA chegam ao Centro de Confinamento ao Terrorismo em El SalvadorImigrantes deportados pelos EUA chegam ao Centro de Confinamento ao Terrorismo em El Salvador - Foto: Presidência de El Salvador / AFP

Entre os 261 imigrantes deportados dos Estados Unidos para uma prisão em El Salvador no fim de semana está o músico venezuelano Arturo Suárez Trejo, cujo trabalho é conhecido nas redes, informou a imprensa latino-americana nesta quarta-feira.

Natural de Caracas, ele migrou para Santiago do Chile e, após seis anos naquele país, teve a oportunidade de pedir asilo em solo americano, onde tinha planos de alavancar sua carreira.

Tudo mudou com a volta de Donald Trump à Casa Branca e a implantação de uma política de pressão total contra a imigração irregular no país.

Sua esposa, Nathali Sánchez, o reconheceu depois de ver uma foto de imigrantes venezuelanos deportados para El Salvador por supostamente pertencerem à gangue criminosa Tren de Aragua, segundo o programa de TV Crónicas de Chile em sua conta no Instagram.

Ela conseguiu identificar seu parceiro por causa das tatuagens no pescoço — Suárez, assim como outros venezuelanos, apareceu vestindo uma camisa branca, com a cabeça raspada e subjugado à força por agentes de segurança que ordenaram que ele mantivesse a cabeça baixa.

Suárez, que é pai de uma menina de três meses e havia solicitado o status de proteção temporária (TPS) nos EUA, foi detido em 8 de fevereiro em uma batida policial realizada por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigle em inglês) em uma casa em Raleigh, Carolina do Norte, onde o venezuelano estava gravando um videoclipe. Todos os moradores do local foram presos.

Essas deportações foram realizadas de acordo com a controversa Lei do Inimigo Estrangeiro (The Alien Enemy Act, em inglês) de 1798, que permite monitorar, prender e deportar cidadãos de "países inimigos" de forma rápida — norma que nunca havia sido invocada em um período de paz até então.

As autoridades venezuelanas consideram essa medida “uma violação dos direitos humanos” e “um ato que evoca os episódios mais sombrios da história da Humanidade”.

Elas também disseram que não descansarão até que eles sejam devolvidos ao país sul-americano.

A esposa de Suárez afirma que ele não pertence ao Tren de Aragua e descreve o marido como “apaixonado por arte, música e vídeos”:

"Ele não é um criminoso, muito menos um terrorista. É um homem bom, um artista que deixou seu país para perseguir seus sonhos e dar à nossa filha um futuro melhor”, explicou Sánchez ao Efecto Cocuyo, um veículo de mídia independente venezuelano.

O casal morava no Chile há vários anos quando uma oportunidade pareceu mudar seu futuro e o do bebê que estavam esperando.

De acordo com o Efecto Cocuyo, Suárez recebeu uma oferta para fazer música e videoclipes nos EUA. Ela teria que percorrer um longo caminho para chegar ao norte do continente, mas, sem pensar muito no assunto, partiu para um novo rumo em setembro de 2024.

Em conversa com o veículo venezuelano, Sánchez lembrou que o principal objetivo de Suárez era ganhar dinheiro suficiente para enviar a ela e a sua filha. Mas a ideia de ir para os EUA também era uma possibilidade.

“Arturo só quer realizar seus sonhos e estar ao lado de sua filha. Ele não merece ser sobrecarregado com uma acusação que não lhe pertence”, afirmou Sánchez.

Depois de ser detido na Carolina do Norte, ele foi transferido para um centro de detenção na Geórgia, segundo sua esposa.

“Ele poderia pedir a saída voluntária, mas não pudemos colocá-lo em contato com um advogado. Em seguida, eles o transferiram para outro centro de detenção no Texas”, disse a venezuelana ao Efecto Cocuyo, acrescentando que tudo aconteceu muito rápido e eles não conseguiram tirá-lo de lá a tempo.

Suárez não é o único nessa situação.

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodriguez, disse na segunda-feira que os venezuelanos deportados no fim de semana não tiveram o devido processo legal

E acrescentou, durante uma entrevista coletiva, que as pessoas deportadas sob a alegação do governo americano de que pertencem à gangue Tren de Aragua não são conhecidas por terem cometido nenhum crime nos EUA ou em El Salvador, e que a Venezuela fará tudo o que puder para que elas voltem para casa.

Mais tarde, o presidente do país, Nicolás Maduro, pediu que organizações internacionais projetam seus cidadãos detidos em El Salvador, declarando que a presença deles nas prisões é ilegal.

Em seu programa na TV estatal, disse que enviará "uma série de comunicações para o secretário-geral das Nações Unidas [António Guterres], o alto comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk" e "várias organizações" para que "os mecanismos de direitos humanos sejam ativados para proteger os venezuelanos".

— Não pode ser que uma pessoa, só por ser venezuelana, seja capturada, sequestrada, sem direito à defesa, sem direito ao devido processo legal, sem condenação, e seja colocada em um campo de concentração nos Estados Unidos e depois enviada para campos de concentração nazistas em El Salvador — disse Maduro em seu programa de TV, antes de se dirigir ao líder do país. — Isso é legal, é justo, é humano, Nayib Bukele?

O líder venezuelano chamou a decisão dos EUA de "expressão totalmente anacrônica e ilegal de agressão à nacionalidade venezuelana", e classificou o ato de um dos" mais hostis e injustos já cometidos pelos Estados Unidos contra os povos da América Latina e do Caribe, e talvez do mundo".

No sábado, o juiz James Boasberg, do Tribunal Distrital dos EUA, ordenou uma suspensão de 14 dias das remoções de acordo com a Lei de Inimigos Estrangeiros e disse que todos os aviões que transportassem os imigrantes venezuelanos teriam que retornar aos EUA "de qualquer maneira, dando ou não a volta no avião".

Apesar disso, 261 migrantes foram removidos nessas condições.

A Casa Branca nega que tenha violado a ordem e afirma que agiu dentro da lei.

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