Brasileiro retiro de Belarus
Brasileiro retiro de BelarusFoto: Arquivo pessoal

Ele planejava passar apenas quatro dias na pequena Belarus, país de passagem no caminho para Moldova, seu destino final. Acabou ficando dois meses, nos quais passou por dificuldades financeiras, sofreu uma ameaça de morte por ser gay e pôde vivenciar o dia a dia no país governado por um autocrata que nega a gravidade da pandemia e recomenda beber vodca e ir à sauna para combater o coronavírus.

Agora, o geógrafo Cristiano Britto, 50, está de volta ao Brasil, graças à ajuda de uma organização internacional que conseguiu tirá-lo de lá.

Desde o ano passado fazendo trabalho voluntário pelo mundo, o brasileiro chegou em fevereiro a Moscou, onde passou um mês. De lá, iria para outra temporada de três meses em Chisinau, na Moldova, onde ajudaria uma ONG de adoção de animais. No trajeto, passaria por Minsk, capital de Belarus, e por Kiev, na Ucrânia.

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Na véspera da saída de seu trem de Minsk para Kiev, no entanto, as fronteiras ucranianas foram fechadas por causa da pandemia. Com planejamento financeiro para apenas dez dias, já que teria hospedagem e alimentação cobertas durante seu trabalho na Moldova, ele começou, então, a buscar uma forma de voltar para o Brasil.

Assim que as fronteiras fecharam, escreveu à embaixada relatando sua dificuldade financeira, afirmando que estava com problemas para pagar o hostel e que só tinha dinheiro para fazer uma refeição por dia. Foi informado de que, por ser o único brasileiro a pedir repatriação e auxílio por desvalimento à embaixada no país, seu caso se tornava mais complexo, e não mais simples de resolver.

Cristiano afirma que, durante seu contato com a embaixada no período, foi desrespeitado pelo funcionário que cuidou de seu caso. "Ele bateu o telefone na minha cara várias vezes. Disse que eu não tinha cara de pobre e um dia chegou a sugerir que eu cometesse um crime para ser deportado. Falou que seria um jeito de eu ir embora rápido para o Brasil. Fiquei sem acreditar", relata ele.

Procurado pela reportagem, o Itamaraty não comentou esse episódio específico, mas respondeu que a embaixada transmitiu orientações sobre o procedimento para comprovação de desvalimento, necessária à análise da possibilidade de oferecimento de recursos ao cidadão pelo posto" e que o brasileiro "não apresentou as informações requeridas para a comprovação do desvalimento".

Cristiano afirma ter enviado todas as informações e documentos que a embaixada solicitou. "Cada dia eles me pediam algo diferente. Eu fui mandando tudo, não sei o que mais eles queriam de comprovação."

O brasileiro chegou a dar aulas de capoeira, salsa, tango e axé no hostel onde estava, o que lhe rendeu entrevistas para meios de comunicação locais e um desconto na hospedagem.

Para não ter que gastar mais com as diárias, ele tentou ser recebido pelo sistema de hospedagem gratuita Couchsurfing, mas foi recusado por mais de 200 casas. Em um encontro em um bar com alguns anfitriões do programa, um deles aproveitou um momento em que estavam sozinhos para perguntar se o brasileiro é gay.

"Eles são muito homofóbicos lá, mas eu nunca me escondi, disse que sim. Perguntei: 'Por que, você também é?' Aí ele ficou muito bravo, disse que não tinha que me respeitar. E falou: 'Nós gostamos de matar gays aqui'", relata. "A partir daí eu fiquei calado. Fiquei preocupado com essa ameaça."

Cristiano contou o ocorrido à embaixada, que o orientou a ir à polícia e enviou um tradutor para ajudá-lo. Chegando lá, ele conta ter sido informado de que, se prestasse queixa, os policiais iriam atrás da pessoa que o ameaçou e que uma outra opção era deixar registrado apenas um depoimento de alerta. Com medo de retaliações, pois não sabia quando conseguiria deixar Belarus, diz ter optado pela segunda sugestão.

A embaixada confirmou à reportagem tê-lo acompanhado à delegacia e afirmou que o entendimento das autoridades locais "foi o de que não havia, de fato, ameaça real à integridade do referido cidadão".

Sem retorno do órgão sobre seu caso e "sem nem um real a mais para comer", Cristiano procurou uma funcionária da OIM (Organização Internacional para as Migrações) em Belarus. Na semana seguinte, embarcou em um voo com passagens bancadas pela entidade. Chegou ao Brasil na segunda-feira (11). "Ela resolveu meu caso muito rapidamente. Só acreditei que estava indo embora quando entrei no avião", conta.

No período em que ficou em Belarus, Cristiano presenciou o dia a dia no país, que não tem nenhuma quarentena oficial. O líder bielorrusso, Alexander Lukashenko, que está há 26 anos no poder, usou os termos "frenesi" e "psicose" para se referir à pandemia e sugeriu, sem nenhuma base científica, que a população "envenene" o coronavírus com vodca e lave as mãos com a bebida.

O país de 9,5 milhões de habitantes registrou até agora mais de 30 mil casos e 171 mortes por coronavírus.

No último dia 9, Lukashenko não quis cancelar um desfile militar para comemorar os 75 anos da vitória da Rússia na Segunda Guerra Mundial. Milhares de pessoas, quase todas sem máscara, foram ao evento. "Vi o pessoal montando todas as coisas, ouvi o barulho dos caças. Mas não fui, não sou louco", diz Cristiano.

Segundo ele, parte dos bielorrussos está fazendo um confinamento por conta própria, por medo de pegar a Covid-19. "Os bares estavam vazios, as pessoas estão se autoisolando porque estão vendo que os casos aumentam."

Apesar de aliviado por ter saído de Belarus, ele se sente mais inseguro no Brasil quanto ao risco de contrair Covid-19. "Venho de um país que tem todos os problemas, mas aqui o surto está muito grande e quase não saio na rua."

Ele diz que, quando as fronteiras reabrirem, pretende voltar à Europa a fazer o trabalho voluntário que ficou à sua espera na Moldova.

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