Adoecer mentalmente no trabalho: rotina que precisa mudar
A saúde mental no ambiente de trabalho tem se tornado uma questão cada vez mais relevante. O aumento significativo de afastamentos devido a transtornos como ansiedade e depressão reflete uma série de fatores que impactam diretamente o bem-estar dos trabalhadores.
Um dos principais fatores é a falta de suporte social. A ausência de uma rede de apoio no ambiente de trabalho pode deixar o trabalhador mais vulnerável ao estresse e à solidão, ou que tende a agravar quadros de ansiedade e depressão.
Além disso, a falta de reconhecimento e valorização profissional, especialmente em funções nas quais o esforço não é devidamente reconhecido, contribui para o surgimento de problemas como baixa autoestima e depressão. Outro fator crucial são as jornadas de trabalho excessivas. A pressão pela produtividade e a dificuldade de equilibrar a vida profissional e pessoal são um terreno fértil para o desenvolvimento de transtornos como ansiedade, depressão e distúrbios do sono. A sobrecarga e a falta de tempo para descanso afetam diretamente o estado emocional do trabalhador.
A insegurança no emprego e a precarização das condições de trabalho também desempenham um papel importante. Quando o trabalhador sente que seu futuro está incerto, o nível de estresse aumenta, e isso pode levar a sérios problemas de saúde mental. A falta de estabilidade no emprego gera um ciclo contínuo de preocupação e ansiedade. Ambientes de trabalho tóxicos, com conflitos interpessoais constantes, fofocas e desconfianças, importantes significativamente para o aumento de transtornos emocionais.
As mudanças organizacionais e reestruturações também têm um impacto relevante. A adaptação a novas funções, sistemas e líderes pode ser exigida e, se não for bem contratada, resulta em um aumento de estresse e ansiedade nos trabalhadores. Esses períodos de transição, quando mal geridos, podem afetar a saúde mental de maneira significativa. Além disso, fatores pessoais, como traumas familiares ou perda de um ente
querido, muitas vezes, se refletem no ambiente de trabalho. Mesmo em locais em que as condições gerais são saudáveis, o trabalhador pode carregar o peso dessas experiências e enfrentar dificuldades emocionais que impactem no desempenho diário.
Por fim, a discriminação no ambiente de trabalho – seja por gênero, raça, orientação sexual ou qualquer outra característica – é uma das causas mais devastadoras para a saúde mental. O preconceito no local de trabalho cria um ambiente hostil e opressor, que pode desencadear ou agravar transtornos emocionais graves. Baseado nestes fatores e nos números aumentados de afastamento dos trabalhadores por problemas em saúde mental, principalmente ansiedade e depressão, o governo federal atualizou a Norma Reguladora nº 1 (NR-1) em que questões psicossociais, como as mencionadas acima, devem ser olhadas e ajustadas, senão a empresa poderá sofrer multas.
Investir na promoção de condições adequadas, no apoio psicológico e no reconhecimento profissional pode ajudar a reduzir os afastamentos e melhorar a saúde mental de todos. A prevenção, mais do que nunca, deve ser vista como uma estratégia fundamental para o sucesso e o equilíbrio dos colaboradores.
* Professora de Psicologia da Faculdade Mackenzie Rio.
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