Fahrenheit 451
No Nordeste brasileiro o sol dá o ar da graça antes das 05h, que, convenhamos, é muito cedo. Estava deitado quando o sol estava entrando no palco e ouvi duas vozes: uma, de Walfrido (1); outra, de uma cracatoa (2). Comentavam sobre os incêndios na Califórnia, EUA, que destroem casas, bairros inteiros. A cracatoa falou que os brasileiros gostam muito de debater sobre assuntos de outros países, como se não tivéssemos broncas suficientes.
O assunto se estendeu e um deles falou do grande incêndio de Roma, que muitos atribuem a Nero, embora essa ordem imperial não tenha sido confirmada até hoje.
Walfrido acrescentou que, queimar o que pertence ao que se considera inimigo, sempre existiu na história. Não se sabe a quantidade de livro que se queimou durante a Revolução de Mao e não é ousado dizer que a rica história da China se foi com esses atos insanos. Aconteceu da mesma forma no período em que o nazismo tomou parte da Europa, obrigando pessoas a esconderem livros e obras de arte em locais inusitados; parte deles ainda hoje ignorados.
Peço uma pausa - para amenizar o tema -, para lembrar Peggy Lee, cantora americana que vi em vídeo, cantando “Fever”, que teve quase 100 gravações. A sua voz ficou imortalizada pelo tom sensual, acompanhada de contrabaixo, bateria e do estalar de dedos da cantora do início ao fim da melodia. Há um trecho da letra que diz “Romeu amava Julieta/Julieta sentiu o mesmo/quando ele colocou seus braços em volta dela, ele disse: ‘Julie, querida, você é minha chama’.”
Pra emendar, falo do filme “Fahrenheit 451” (3), baseado no livro de mesmo título do escritor Ray Bradbury, que fez a obra fundamentado na queimação de livros pelos nazistas e pela repressão ideológica da então União Soviética de Stalin. Não li o livro, mas vi o filme, bom filme. O livro teve problemas com a censura e foi proibido em alguns países. Nos EUA, recebeu elogios e sofreu duras críticas; em alguns locais, palavras foram riscadas.
Vetar livros – total ou parcialmente - é uma forma de censura, cruel, porque não dá ao leitor o direito de conhecer a obra e opinar sobre ela. O cidadão tem o direito de escolher o que deseja ler e, depois, dar o destino que quiser, inclusive o lixo. Proibir a circulação ou mandar queimar livros é uma forma de censura em países autoritários. Já aconteceu no Brasil e soube que houve uns “ensaios” recentes nesse sentido. Rezo, torço e espero que seja apenas um ensaio.
Continua no próximo capítulo...
451 Fahrenheit corresponde a 253°C.
(1) penífero tagarela que fala em português e canta em vários idiomas
(2) aves barulhentas e coloridas, têm bicos encurvados e pés com grande capacidade de movimentação
(3) direção de François Truffaut
* Executivo do segmento shopping centers (jcporoca@uol.com.br).
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