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MUNDO

Para opositor em Israel, só fim da guerra salvará reféns

Líder do novo partido Os Democratas, Yair Golan afirma que solução dada por Trump para Gaza pode forçar outros países a agirem para encerrar conflito em Gaza

Israelenses protestam pedindo libertação de todos os reféns sequestrados, em frente ao Ministério da Defesa Israelenses protestam pedindo libertação de todos os reféns sequestrados, em frente ao Ministério da Defesa  - Foto: Jack GUEZ / AFP

Na manhã de 7 de outubro de 2023, após receber as primeiras informações sobre o ataque do grupo terrorista Hamas a um festival de música, em algumas cidades de Israel e em pelo menos 20 kibutz localizados no sul do país, o líder opositor de centro-esquerda Yair Golan — que atuou durante 37 anos nas Forças Armadas de Israel —, vestiu seu antigo uniforme, pediu autorização para atuar como enviado militar na região e partiu de Tel Aviv em busca de pessoas que precisavam de ajuda para fugir.

 

Golan é hoje uma importante liderança de oposição, que desafia permanentemente o governo do premier Benjamin Netanyahu. Em conversa com um grupo de jornalistas brasileiros, da qual O GLOBO participou, ele não poupou críticas ao atual governo, segundo ele, o “mais extremo da História de Israel”, mas defendeu parcialmente o plano de Trump para reconstruir Gaza.

Ex-vice ministro da Economia durante a breve coalizão liderada por Naftali Bennett e Yair Lapid, em 2022, e atual líder do novo partido Os Democratas — que nasceu da fusão entre o partido Trabalhista com o Meretz —, Golan afirma que Israel “não irá sobreviver como país autocrático e autoritário”.

— Precisamos de um governo razoável, moderado e racional. Esse é um fator-chave para influenciar toda a região. Temos um governo que falhou no 7 de outubro, não conseguiu libertar todos os reféns, ou não quer libertá-los — afirmou o opositor, que define seu partido como uma “alternativa democrática”. — Aqui não temos uma questão entre direita e esquerda, é entre moderados e extremistas, entre corruptos e democráticos.

Em um momento de enorme incerteza sobre o acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, com trocas de acusações de ambos os lados, Golan, como a maioria da sociedade israelense, defende que libertar os reféns é absoluta prioridade — “é uma ferida que devemos curar imediatamente”.

Por isso, apoia um novo acordo que ajude a liberar a todos, sem exceções.

— Sabemos que o principal preço será terminar com a guerra. E acho que é um preço que precisamos pagar. Estamos dispostos a ser mais generosos, mas precisamos lembrar que o Hamas é uma organização terrorista. O fato de que eles não estão dispostos a cumprir o acordo [de cessar-fogo] é uma questão muito séria. Se eles não quiserem libertar os reféns, vamos lutar por isso. Não vamos hesitar.

Golan também é otimista em relação à influência do presidente dos EUA, Donald Trump, mesmo considerando que suas declarações sobre o conflito até agora tenham sido “vagas”. Para ele, o líder americano pode “forçar outros países a se moverem numa direção mais positiva”. Nesse sentido, EUA e Arábia Saudita poderiam ajudar a financiar a reconstrução do enclave.

— Estamos falando em cerca de US$ 100 bilhões (R$ 580 bilhões), pelo menos. De onde virá esse dinheiro? Se não queremos tirar de nosso caixa, alguém deverá pagar. E os únicos que estarão dispostos são, provavelmente, os países que olham para a Faixa de Gaza não apenas do ponto de vista humanitário, mas também estratégico — ponderou Golan, que defende que o futuro de Gaza passa pela substituição do Hamas, que governa o enclave desde 2007, pela Autoridade Nacional Palestina. — Se você quer estabilizar o Oriente Médio deve apoiar os mais moderados. Faz sentido para os EUA apoiar a Autoridade Nacional Palestina.

Abusos em Gaza
Mas, apesar das críticas a Netanyahu, Golan se esquivou quando questionado sobre os abusos cometidos contra civis em Gaza ao longo da guerra. Nos últimos meses, diversas organizações internacionais acusaram Israel de cometer crimes de guerra no enclave — no fim do ano passado, um relatório da Human Rights Watch apontou que o deslocamento forçado de palestinos representa um “crime contra a Humanidade”.

— Acho que devemos deixar de lado a questão da forma como lutamos até agora na Faixa de Gaza. É uma guerra muito complicada. A complexidade dessa luta é quase inacreditável. Nós devemos lembrar que, intencionalmente, o Hamas colocou todas as suas instalações militares debaixo das escolas, de instalações médicas e assim por diante.

Segundo o opositor, a principal necessidade dos israelenses hoje é a “segurança”.

— A paz para Israel é ter segurança. Somos um país traumatizado e precisamos reconstruir a confiança. Não temos intenções de dar aos palestinos a responsabilidade sobre nossa segurança até que não possamos confiar completamente neles. Para chegar a uma solução de dois Estados, temos de construir pontes.

*A repórter viajou a convite do Instituto Brasil-Israel (IBI)

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