Logo Folha de Pernambuco
EUA

"Uma falha, mas nada sério", diz Trump após vazamento de planos de guerra; Congresso quer audiência

Repórter foi incluído em grupo com membros do alto escalão do governo e recebeu informações ultrassecretas

O presidente dos EUA, Donald TrumpO presidente dos EUA, Donald Trump - Foto: Annabelle Gordon / AFP

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou nesta terça-feira (25) o vazamento de planos ultrassecretos de bombardeios contra os rebeldes houthis no Iêmen, classificando o episódio como “uma falha, mas que acabou não sendo sério”.

O episódio ganhou repercussão internacional após uma reportagem da revista americana The Atlantic, publicada nesta segunda-feira, revelar que o editor-chefe da publicação, Jeffrey Goldberg, foi acidentalmente incluído em um grupo de mensagens criptografadas no aplicativo Signal, onde autoridades do alto escalão do governo compartilhavam informações ultrassecretas de segurança nacional.

Em declaração à NBC News por telefone, Trump afirmou: "Foi a única falha em dois meses, mas que acabou não sendo sério". Além disso, o republicano acrescentou que seu Conselheiro de Segurança Nacional, Michael Waltz, “aprendeu a lição”.

Foi na terça-feira, 11 de março, que Goldberg, recebeu o primeiro sinal: um pedido de conexão no Signal, um aplicativo de mensagens criptografadas, feito por um usuário identificado como Michael Waltz, o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos.
 

De início, o jornalista não acreditou que pudesse ser o próprio Waltz, mas dias depois outros sinais foram surgindo: primeiro, ele foi incluído — aparentemente por engano — em um grupo de mensagens com membros do alto escalão do governo; depois, começou a receber informações ultrassecretas que anteciparam planos de guerra contra os rebeldes Houthis no Iêmen; os funcionários do governo mostraram desprezo por aliados europeus e indicaram desalinhamento entre os desejos do presidente e de seu vice, JD Vance.

A história, descrita pela imprensa internacional como uma “violação extraordinária da inteligência de segurança nacional” do país, foi divulgada por Goldberg na segunda-feira. No mesmo dia, a Casa Branca confirmou que o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, divulgou planos de guerra dos Estados Unidos em um chat de grupo criptografado que incluída um jornalista, apenas duas horas antes de as tropas do país efetivamente lançarem os ataques contra os rebeldes Houthis no Iêmen.

A conversa, no entanto, ocorreu fora dos canais seguros do governo que normalmente seriam usados para o planejamento de guerra, considerado altamente sensível. Goldberg acompanhou o diálogo entre os principais membros da equipe de segurança nacional de Trump nos dias que antecederam o ataque no Iêmen — e disse que, pouco antes da ofensiva, Hegseth postou “detalhes operacionais, incluindo informações sobre alvos, armas que os EUA iriam empregar e a sequência dos ataques”.

Congresso convocou chefes da CIA e FBI
Os principais oficiais de inteligência do governo Trump foram convocados nesta semana ao Congresso para prestar esclarecimentos. Estão previstas audiências com o Comitê de Inteligência do Senado nesta terça-feira e, na quarta-feira, com o Comitê da Câmara.

Entre os convocados estão o diretor do FBI, Kash Patel, o diretor da CIA, John Ratcliffe, e a diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard. Todos deverão ser questionados sobre a falha na comunicação e o vazamento acidental para o jornalista.

Principal democrata na Comissão de Serviços Armados, o senador Jack Reed disse que a história representa “uma das falhas de segurança operacional e de bom senso mais gritantes” que já viu. O deputado Jim Himes, da Comissão de Inteligência da Câmara, também disse ter ficado “horrorizado” com as denúncias, destacando que, se um funcionário de baixo escalão “tivesse feito [a mesma coisa], provavelmente perderia seu acesso à informações sigilosas e seria alvo de uma investigação criminal”.

Após vazamento, Reino Unido reagiu
Em Londres, segundo a agência Reuters, um porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer afirmou que o Reino Unido manterá a cooperação com os EUA em questões de segurança no Oriente Médio e destacou a confiança do governo britânico na integridade das comunicações com Washington.

— Os EUA são nossos aliados mais próximos quando se trata de questões de inteligência e defesa. Continuaremos a desenvolver o relacionamento muito forte que já temos com os EUA em questões de defesa e segurança — disse o porta-voz.

Desprezo pela Europa
A exposição das mensagens privadas também ofereceu uma visão única e explícita do desprezo dos altos funcionários pelos aliados europeus. Nas conversas, os líderes americanos destacaram como eles acreditam que os europeus estão “se aproveitando” dos esforços dos Estados Unidos para atacar os Houthis, com um usuário identificado como o vice-presidente JD Vance escrevendo: “Eu simplesmente odeio ter que resgatar a Europa de novo”. Como resposta, Hegseth foi enfático: “Compartilho totalmente seu desprezo pelo parasitismo europeu. É patético”.

O desconforto dos aliados europeus com os EUA já era profundo, com Trump afirmando repetidamente que eles não gastam o suficiente em defesa e prometendo tarifas massivas que poderiam desestabilizar as economias de vários membros da União Europeia (UE). Agora, as mensagens deram um passo além: no grupo, Waltz, o Conselheiro de Segurança Nacional, afirmou que Washington contabilizaria os custos do ataque e “cobraria dos europeus”, conforme solicitado por Trump.

Os Houthis — organização apoiada pelo Irã e cujo lema é “Deus é grande, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o Islã” — começaram a atacar navios comerciais no Mar Vermelho no final de 2023, supostamente em apoio aos palestinos após o início da guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza. Em 2024, a administração de Joe Biden (2021-2025) lançou uma força-tarefa internacional com Reino Unido, França, Itália e outros parceiros para proteger as rotas marítimas. A UE também iniciou uma missão naval separada, enviando navios de guerra europeus para proteger embarcações de carga.

Em dado momento nas conversas, Vance disse temer que os ataques fossem um erro, considerando que havia, segundo ele, “um risco real de que o público não entenda por que a ação é necessária”. A declaração foi especialmente notável porque o vice não desviou publicamente da posição de Trump em praticamente nenhum assunto. Ainda assim, ele escreveu no chat: “Não tenho certeza se o presidente está ciente de como isso é inconsistente com sua mensagem sobre a Europa agora”.

Ao responder à mensagem de Vance, que sugeria que os ataques fossem adiados, Hegseth indicou que o impacto que a campanha militar teria na opinião pública seria “difícil a qualquer momento”, considerando que “ninguém sabe quem são os Houthis”: “É por isso que precisamos nos concentrar em: 1) Biden falhou e 2) O Irã financiou”, argumentou.

 

Veja também

Newsletter