Ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva
Ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e SilvaFoto: José Cruz/Agência Brasil

Folhapress - As Forças Armadas concordam com a nota emitida na sexta (21) pelo general Augusto Heleno, na qual o chefe do Gabinete de Segurança Institucional falava de "consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional" por ato do Supremo Tribunal Federal. Heleno criticou o envio para avaliação da PGR (Procuradoria-Geral da República), pelo ministro Celso de Mello, de um pedido de apreensão dos celulares do Jair Bolsonaro e de seu filho Carlos, no âmbito do inquérito que apura suposta interferência política do presidente na Polícia Federal.

Segundo o superior dos fardados, o ministro Fernando Azevedo (Defesa), contudo, tais consequências não seriam um golpe ou intervenção militar. Ele afirma que seria o risco de uma crise institucional se o presidente se recusasse a entregasse seu celular, como disse que o faria na sexta.

No entender de Azevedo, que falou primeiro sobre o caso na noite de sexta à CNN Brasil, o celular do presidente é uma questão de "segurança institucional". Ele afirmou estar "bastante preocupado com o clima de tensão entre os Poderes".

No último mês, o ministro editou duas notas reafirmando o compromisso das Forças com a Constituição após Bolsonaro participar de atos golpistas. Também exortou a harmonia entre Poderes, num recado ao Supremo e ao Congresso.

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A frase de Heleno, contudo, foi lida universalmente pelo mundo político como uma ameaça aos Poderes, o que querendo ou não Azevedo se arrisca a fazer ao apoiar o texto. Segundo o ministro, ele soube da nota antes de sua publicação e concordou com seus termos. A manifestação de Azevedo busca ponderação, mas indica também o desconforto crescente da ala militar do governo, e de vários setores da ativa, com as atitudes do Supremo ante o governo Bolsonaro.

Como o jornal Folha de S.Paulo mostrou, uma série de decisões contrárias ao presidente, no Legislativo mas principalmente no Judiciário, estão sendo vistas como excessivas pelos fardados. Até aqui, a mais grave na visão deles fora a liminar barrando a posse de Alexandre Ramagem na PF.

Celso de Mello, como condutor inquérito decorrente das acusações do ex-ministro Sergio Moro sobre a ingerência na PF, já vinha sendo criticado pela celeridade no trâmite do caso. O pedido à PGR sobre os celulares era meramente protocolar, obrigatório aliás, mas, por ter sido feito por parlamentares de esquerda e expedido rapidamente, ganhou ares de conspiração contra o Planalto.
Isso gerou a reação de Heleno, referendada por Azevedo, ele também um general de quatro estrelas da reserva.

A crispação só piorou na sexta, com a divulgação por ordem de Mello do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, que corrobora a versão de interferência de Bolsonaro na PF, na qual o ministro Abraham Weintraub (Educação) pede a prisão de ministros do Supremo.

Embora vários oficiais da ativa e da reserva ouvidos pela reportagem tenham classificado como impropriedade a ideia de confiscar o celular do chefe de Estado, o tom de Heleno foi amplamente criticado. Um general de quatro estrelas, topo de carreira, que já ocupou diversos postos altos no Exército e hoje está na reserva, queixou-se de que as Forças Armadas estavam perdendo todo o capital político angariado desde a redemocratização.

Já um brigadeiro, também com quatro estrelas no ombro, afirmou que não há possibilidade de a Força Aérea embarcar em qualquer aventura autoritária, ressaltando a falta de ordem unida entre os três braços do poder armado. Azevedo tenta demonstrar harmonia como pivô entre o serviço ativo e a ala militar do governo, ora envolvida na sobrevivência política do chefe.

Bolsonaro, por sua vez, voltou a ser questionado acerca da nota de Heleno neste sábado (22). "Somos um mesmo time: eu, [Augusto] Heleno, Fernando [Azevedo e Silva]. Somos um mesmo time", respondeu.

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